quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A personalidade feminina da Guarda Municipal de Macaé. Salvando vidas e fazendo história. (Um relato sobre a tragédia de janeiro de 2011 em Nova Friburgo).

A personalidade feminina da Guarda Municipal de Macaé.
Salvando vidas e fazendo história.
(Um relato sobre a tragédia de janeiro de 2011 em Nova Friburgo).

A estarrecedora tragédia acontecida na região serrana do Estado Rio de Janeiro, na madrugada de 11 para 12 de janeiro de 2011, chocou o país com estatísticas e imagens impressionantes. Mas a mídia cobriu está catástrofe de forma ampla e em um aspecto geral dos acontecimentos. Mas muitas histórias particulares aconteceram, histórias de caráter particular e solidário, mas que faz parte do conjunto de fatos que formaram essa tragédia. Uma visão particular, impressões pessoais que, também, retratam centenas de histórias e de sentimentos também pessoais.
Busco escrever sobre a História Pessoal, a Micro História e a História Oral, para romper os paradigmas da História tradicional, a História dos grandes nomes e a História dos vencedores. Desde o advento desta nova História preconizada pela Escola do Annales que os relatos pessoais e a História Cultural passaram a integrar a História Moderna. É a humanização da História e a aproximação com o seu objetivo, que é esclarecer as pessoas.
Na noite do dia 12 de janeiro de 2011 toda a mídia reportava a tragédia acontecida na região serrana do Estado do Rio de Janeiro. As cidades de Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo foram as mais atingidas. Na cidade de Macaé distante 120 km de Nova Friburgo uma Guarda Municipal se emocionava com a tragédia a GM (Guarda Municipal) Laila que representava um pequeno grupo de mulheres que atuam de forma efetiva nas ações da Guarda Municipal.


A manhã do dia 13 de janeiro de 2011 foi marcada pelas manchetes da tragédia:
Diário do Nordeste - Fortaleza
“Dilúvio no Rio causa 271 mortes"
Correio Braziliense - Brasília
“Tragédia e omissão"

Hoje em Dia - Belo Horizonte
“Tragédia que se repete"
Estado de Minas - Belo Horizonte
“Temporais matam mais de 270 no Rio"

Correio do Povo - Porto Alegre
“Chuvas na região serrana do Rio matam mais de 250 pessoas"
Zero Hora - Porto Alegre
“Vidas soterradas"

Jornal do Commercio - Recife
“Catástrofe no Rio"
Folha de S.Paulo - São Paulo
“Estado do Rio enfrenta a pior chuva em mais de 4 décadas"
O Estado de S. Paulo - São Paulo
“Chuvas causam maior tragédia natural do Brasil em 44 anos"

Jornal da Tarde - São Paulo
“Lama varre 3 cidades e mata famílias inteiras no Rio"

Com o assunto publicado por todas as mídias uma rede de solidariedade se formou e vários donativos começaram a ser entregues nos órgãos oficiais, inclusive na Guarda Municipal de Macaé. A GM Laila que não encontrava meios de ajudar as vítimas encontrou ali uma forma admirável de ser útil.

“A Guarda Municipal de Macaé, sem que eu esperasse, de repente passou a tornar-se um ponto de doação, roupas e donativos para a região serrana. Senti uma imensa alegria com isso, e resolvi literalmente "pôr a mão na massa". Liguei para todos que eu conhecia e pedi para que contribuíssem. ’ (http://eternamentefriburgo.blogspot.com/2011/06/quando-midia-divulgou-catastrofe-na-tv.html)

A noite do dia 13 transforma a catástrofe natural em tragédia nacional, pois é dimensionado como a maior tragédia natural da História do Brasil, quando o número de mortos atinge a impressionante marca de 506 pessoas. Mas os resgates estavam apenas começando e a campanha de solidariedade que ganhava os meios de comunicação ganhava força. A sociedade se mobilizava, a mídia divulgava os fatos trágicos e heróicos. Essa comoção social envolveu grande parte das pessoas e ao fim da noite do dia 14 de janeiro o Governo do Estado do Rio de Janeiro confirma a morte de 547 pessoas e que as chuvas continuam intensas na região.
De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil, 247 pessoas morreram em Nova Friburgo, 237 em Teresópolis, 43 em Petrópolis e 16 em Sumidouro. Também há registro de quatro mortes em São José do Vale do Rio Preto.
(http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/860973-governo-confirma-547-mortes-na-regiao-serrana-do-rj-municipios-ainda-enfrentam-chuva.shtml).

Uma rede social de apoio se forma por todo o país, principalmente no Estado do Rio de Janeiro. Bancos, empresas e cadeias de lojas participam desta mobilização. A Vale do Rio Doce doou dois reais para cada real doado por seus funcionários. Os bancos abriram contas especiais para receberem doações e especialmente o Itaú que repassou 1 (hum) milhão de reais para ajudar as vítimas da tragédia. A Santa casa de Misericórdia do Rio de janeiro doou 140 caixões e vagas em cemitérios. Os moradores de todas as áreas da cidade montaram postos de coleta com a colaboração de bares e restaurantes da região. “O Rio mais uma vez está demonstrando a força de seu espírito solidário em momento de catástrofes”. Declarou Pedro de Lamare Presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio, Ao jornal Folha de São Paulo. Juntamente com empresários da cidade, ele organizava um mutirão que passou por hotéis cariocas coletando alimentos e roupa de cama e banho.
O balanço parcial da catástrofe natural da região serrana do Estado do Rio de Janeiro ao final do dia 15 de janeiro de 2011 contabiliza 613 mortos. E os exemplos de solidariedade e voluntariado eram constantes e contribuíam para que mais ajuda chegasse para a região. Grupos percorriam a pé estradas destruídas que não eram possíveis de serem utilizadas pelos jipes do exército. Junto com o exercito a Força Nacional de Segurança atuou na região socorrendo vitimas. “É gratificante poder ajudar e salvar vidas. Não tem como ficar em casa e dormir sossegado, sabendo que tanta gente está precisando de nós", Alexandre Leal, morador de Nova Friburgo ao jornal Folha de São Paulo.
No dia da tragédia, o grupo de amigos foi um dos primeiros a chegar a Santa Rita. "Conseguimos resgatar 20 pessoas. Saímos da mata eram 11 horas da noite. Tinha pessoas precisando de remédios e criança sem comida. A gente conhece as trilhas desde menino, então viemos para cá ajudar", disse outro voluntário, Rafael Macedo de Carvalho: "Tem gente lá dentro que não sabia a proporção do que havia acontecido, pensava que tinha sido só lá, que tinha caído apenas uma barreirinha". (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/861348-voluntarios-ajudam-a-resgatar-moradores-de-areas-isoladas-em-teresopolis.shtml
Os exemplos de solidariedade eram muitos e o trabalho de receber, organizar e despachar as doações que chegavam a sede da Guarda Municipal de Macaé não cessavam e junto a todo esse trabalho a colaboração da GM Laila continuava ativa. Até que no dia 18 de janeiro ela recebe o convite para seguir como voluntária para atender diretamente as vítimas dos deslizamentos. Imediatamente aceita o convite e a jornada teria início no dia 20 de janeiro e retorno no dia 22 do mesmo mês.
No dia 20 de Janeiro a GM Laila segue para Nova Friburgo, do grupo de 20 Guardas Municipais voluntários apenas duas mulheres ela e a GM Sara Moura, técnica de enfermagem. Não sem antes contar com a dúvida do Corregedor da Guarda Municipal de Macaé, que de forma tradicionalista viu com restrições o serviço voluntário de uma mulher. No dia anterior a imprensa divulgava o número de 741 mortos, além de desaparecidos e de áreas ainda não atendidas pelo resgate. Era esse o desafio que a GM Laila e a GM Sara Moura encontrariam pela frente.
Esse grupo de voluntários fica estabelecido na região de Conquista, na zona rural de Nova Friburgo. O grupo é divido em Base 1, onde os voluntários atuam na linha de frente, resgatando pessoas, pertences e corpos. É nesta base que trabalha a GM Laila e a Base 2. Chamada de abrigo, onde a população encontra atendimento e orientação. Além de denunciar furtos e ocorrências policiais. Onde se estabelece a GM Sara Moura.
Foi nessa situação de calamidade que a GM Laila pode perceber o quanto de atenção, carinho e cordialidade recebeu de pessoas que estavam com problemas muito graves e sofrendo pela perca de parentes e amigos. Uma população fragilizada que para tudo e em qualquer situação buscava o apoio e a participação destes voluntários fardados, que ali, representavam todo o auxilio que o mundo enviava para eles. As famílias, quando não mais tinham corpos para serem resgatados, procuravam reaver seus objetos pessoais, que naquele momento lhes parecia muito mais importantes do que antes do desastre.
O dia 21 de Janeiro foi marcado por um maior aprofundamento no contexto social e humano pela GM Laila. A necessidade de ir a localidade de Pilões (terceiro distrito de Nova Friburgo) e convencer uma mãe a seguir com seu bebê para ser internado em um hospital já superlotado não é uma tarefa fácil. As pessoas têm o lar como um lugar seguro e nas dificuldades estar fora de casa é um sofrimento a mais. Sofrimento que a GM Laila também experimentava.
Vi e sequei muitas lágrimas. Sentava no meio fio, na rua e na calçada fardada para ouvir e levar um carinho, uma palavra de conforto e de consolo àquelas pessoas. Eu tentava sentir um pouco da dor deles, e de fato eu sentia. Mas creio que só quem perdeu tudo, sabe da intensidade do seu sofrimento. GM Laila.
(http://eternamentefriburgo.blogspot.com/2011/06/apoio-e-parceria-com-o-bope-e-pm-para.html)

Certamente a presença dos voluntários modificou a vida das pessoas, mas sem dúvidas estas pessoas modificaram a vida destes voluntários, principalmente da GM Laila que escreve em um de seus depoimentos. “Cresci muito como profissional e como ser humano diante daquelas pessoas tão simples e tão acolhedoras, carentes, sofridas e sábias.”
O forte laço familiar dos moradores da região é demonstrado no caso da menina Raquel. Um homem que já havia perdido sua mulher na enxurrada permanece agarrado com seus quatro filhos durante a tormenta. Mas um novo golpe da água faz com que ele solte dois deles, mas que ainda se mantém sob a visão do pai, agarrados em uma cerca de arame farpado, mas logo ele perde os filhos de vista e fica em completo desespero por ter dois de seus filhos consigo e dois perdidos. Por fim ele reencontra na Base 2 seus dois filhos perdidos, sendo um deles a menina Raquel com mais de 60% do corpo em “carne viva”.
Mas estes laços familiares também eram rompidos a força. Como o caso de “Seu” Aroldo. Ele conseguiu salvar esposa e filhos, mas não pode salvar seu irmão levado pela enxurrada e resistiu a tentar salva a sobrinha de 10 (dez) anos que da casa ao lado gritava “Tio me salva”. A tentativa de salvamento certamente seria a morte para o próprio “Seu” Aroldo, que também não tentou salvar as pessoas que passavam carregadas pelas águas próximas a sua casa. O caso de “Seu Elmir” é destacado como uma lição de vida. Ele perdeu filho, filha, sobrinha, esposa, carro, casa e a lavoura. E para se conformar da perda, utiliza o argumento de que “Deus sabe os porquês e um dia eu vou entender. Porque eu não morri também? Não sei. Acho que minha esposa se foi com as crianças porque Deus sabe que ela não suportaria sentir tamanha dor que eu estou sentindo, por isso a levou” Com esse exemplo a GM Laila se sente comovida e percebe de como costuma reclamar de coisas pequenas e banais.
Os sentimentos da GM Laila estavam muito presentes em todos os momentos em seu blog ela relata:
“Cavamos, puxamos galhos de árvores, tiramos pedras, respirávamos de máscaras a lama podre, mas não achamos nenhum corpo. Talvez estivessem muito abaixo da terra, ou quem sabe os rios de lama os tivessem levado para longe dali.Não encontramos nada que pudesse servir ao Seu Elmir. Porém cada objeto que eu via ou tocava, me fazia pensar e discretamente me emocionar. Emoção esta que eu não deixei aflorar. Sufoquei dentro de mim. Eu não estava ali para chorar, estava ali para somar!”
Mergulhar em outra realidade social é um fator que pode provocar reações e gestos inesperados e essas reações estavam atingindo a GM Laila intensamente, eram pequenas tragédias dentro de uma grande tragédia. E a atitude analítica da Micro História é perfeita para conduzir essa investigação. Como afirma Giovanni Levi a Micro História é um zoom em uma fotografia, sem deixar de considerar o restante da fotografia.
As realidades dos dois mundos vão se integrando. O voluntário com espírito forte e pronto para ajudar e o morador local desamparado e perdido por tanta dor que sente, mas também sempre pronto para ajudar com um café, um biscoito ou uma conversa. E foi a GM Laila que encontrou um elo entre esses dois mundos ao conhecer e adotar uma cadela de aproximadamente um ano que tinha o mesmo nome dela. Essa cadela que pertencia a uma menina falecida representou um signo vivo entre as distantes realidades, mas que por alguns momentos estavam integrados.
Por fim é importante ressaltar o caráter amplo de algumas atitudes particulares. O caso retratado neste artigo certamente foi vivenciado por outras centenas de pessoas que com sua ação modificou a história de outras milhares de pessoas, formando essa grande história de desastre e solidariedade em janeiro de 2011 em Nova Friburgo.
Bibliografia:
ROSA, Helena. História Oral e Micro-história: aproximações, limites e possibilidades. In: IV Encontro Regional Sul de História Oral – anais, 2007.
LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: Trajetória de um exorcista no Piemonte do Século XVII. Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 2000. (43 – 52 p.)
Sites:
http://eternamentefriburgo.blogspot.com/
http://acervo.folha.com.br/

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GUATEMALA POR GILBERTO ERNESTO DOS SANTOS

GUATEMALA




GILBERTO ERNESTO DOS SANTOS















MACAÉ – RJ
NOVEMBRO 2011

GILBERTO ERNESTO DOS SANTOS








GUATEMALA









Trabalho apresentado ao Professor Victor, da disciplina de História da América da turma de 2º Período , turno da noite do curso de História.




Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Macaé
Macaé – 2011

SUMÁRIO

1 – INTRODUÇÃO _________________________________________________ P 1

2 – INDICADORES GEOGRÁFICOS _____________________________________P2

3 – INDICADORES POLÍTICOS ________________________________________P 3

4 – INDICADORES SOCIAIS __________________________________________ P 4

5 – INDICADORES ECONÔMICOS _____________________________________P 4

6 – INDICADORES DEMOGRÁFICOS __________________________ ___P 4

7 – INDICADORES HISTÓRICOS DA GUATEMALA DE 1950 A PRESENTE DATA¬__ P 5

8 – INDICADORES CULTURAIS E RELIGIOSOS ______________________ P 7

9 – BIBLIOGRFIA __________________________________________________ P 9



















1 – INTRODUÇÃO
Esse trabalho tem por finalidade ampliar nossos conhecimentos com relação a um pequeno país, esquecido pela humanidade, de aparência pobre, porém que contem muitas riquezas, sendo elas naturais e culturais.
A Guatemala é um país com antecedentes indígenas.
A Guatemala, oficialmente República da Guatemala, é um país da América Central, limitado a oeste e a norte pelo México, a leste pelo Belize, pelo Golfo das Honduras e pelas Honduras e a sul por El Salvador e pelo Oceano Pacífico. Sua capital é a Cidade da Guatemala.






















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2 – INDICADORES GEOGRÁFICOS

A Guatemala é um país localizado na América Central.
Sua área total territorial corresponde há 108.890 km².
Com uma porcentagem de 0,4% de água.
Segundo pesquisas no ano de 2010 a população total do país correspondia a 14.700.00 pessoas, aproximadamente.
A capital do país é a cidade da Guatemala.
A Guatemala é o terceiro maior país da América Central. Limita-se ao Norte e a Oeste com o México, ao Sul com o oceano Pacífico e a Leste com Honduras, Belize e El Salvador. Assim como outros países centro-americanos, a Guatemala possui diversos lagos, cadeias de montanhas, que são prolongamento da Serra Madre mexicana, e grandes vulcões – alguns chegam a atingir mais de 4.000m de altitude e ainda estão ativos, como o Tajumulco, de 4.210m e o Tacaná, de 4.093m.
Ao Sul e a Leste as altitudes são menores. O Vale Motagua, na planície de El Petén, é um dos principais campos de fósseis de dinossauros. É também a região mais fértil do país e onde se concentram as principais atividades econômicas, com destaque para o cultivo do milho e a banana. Na região próxima ao Pacífico, as plantações de cana-de-açúcar e café são as mais importantes.
A temperatura é quente nas planícies e fria nas montanhas. No litoral do Pacífico, o clima é o tropical, e na costa caribenha os termômetros chegam a atingir 38 °C. Na floresta da planície de El Petén o clima é quente, e o grau de umidade varia de acordo com a época do ano.















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3 – INDICADORES POLÍTICOS

O Produto Interno Bruto (PIB) no ano de 2005 correspondia há U$$ 63,78.
A renda per capita era de U$$ 4,155.
A moeda oficial da República da Guatemala é Quetzal.
O código postal do país é ++502.
O código de internet é: gt
O website oficial do país é: WWW.guatemala.gob.gt
A língua oficial do país é o espanhol.
O método de governo adotado no país é a Republica Presidencialista.
Sua independência foi declarada no ano de 1821, ano que o recente país cortou todo vínculo político com a Espanha, país que até então dominavá-a.
Lema do país; “Livre, cresça fecundo”.
Os gentílicos são guatemalense , guatemalês e guatemalesco.
O parlamento da Guatemala, o Congresso da República, com 113 assentos, é eleito cada quatro anos, simultaneamente com as eleições presidenciais. O presidente atua como chefe de Estado e do governo. Em suas tarefas executivas é auxiliado por um gabinete de ministros que são designados pelo próprio presidente.

Em 1822, as províncias de Guatemala foram anexadas ao Império mexicano, anos mais tarde separaram-se e formaram as províncias unidas da América Central, a República da América Central, que se prolongou até 1839. Em 1840, a Guatemala ganha a sua independência.
O Século XX inicia-se com a United Fruit Company como empresa poderosa que movia o destino da política e da economia do país, esta situação estendia-se até meio do Século XX. Posteriormente chegaram os anos de tensão que resultou numa guerra civil, a época da insurgência norte americana na América Central, em que a Guatemala não foi alheia, a época dos esquadrões da morte, de organizações paramilitares que matavam todos aqueles cuja ideologia era de esquerda. A partir daí a guerra civil, uma guerra que durou 36 anos, até 1982. Nesta era negra, mais de 60,000 camponeses instalaram-se no México para fugir das execuções por parte do exército guatemalo, assim como de grupos paramilitares.

Em 1982 instaurou-se a democracia na Guatemala, sem bem que foi uma democracia com pés de barro, pelo problema da corrupção, dos interesses, da manipulação e fraude que vinha a acontecer nas anteriores eleições, em 1986 a democracia tinha chegado à Guatemala, mas também a instabilidade chegou à região. No anos 90, pouco a pouco a situação foi estabilizando, e a democracia sendo reconhecida, reconheceu-se a independência de Bilice, algo que não era muito popular.







Bandeira ofical e brasão das armas.
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4 – INDICADORES SOCIAIS

Segundo institutos de pesquisas no ano de 2010 o Índice de desenvolvimento Humano (IDH), correspondia há 0,560, ocupando a posição 116º, sendo considerado como médio em relação a outros países mundiais.
A expectativa de vida da população é de 70, 3 anos.
A taxa de mortalidade infantil chega há 30,1 mil por ano.
A Guatemala é considerado o segundo país mais pobre das Américas.
A taxa de analfabetismo é de 69,1% da população.



5 – INDICADORES ECONÔMICOS

A economia da Guatemala baseia-se predominantemente na agricultura. Um quarto do PIB, dois terços das exportações e metade da força de trabalho do país provém do campo.
Os principais produtos são:
café
açúcar
bananas
milho
O presidente Arzu (1996-2000) trabalhou para implementar um programa de abertura comercial e para modernizar a política do país. Em 1996 foi assinado o acordo de paz que pôs fim à guerra civil que durava há 36 anos.
A distribuição de riquezas do país é bastante desigual, com 46,3% da população abaixo da linha da pobreza (2010).




6 – INDICADORES DEMOGRÁFICOS

Os latinos (mestiços e ameríndios ocidentalizados) e brancos compõem cerca de 59,4% da população da Guatemala. Os ameríndios não assimilados, descendentes dos maias, constituem 40,6% da população.Também há descendentes de africanos, especialmente ao longo da costa caribenha, em especial os garifuna.
Embora a maior parte da população da Guatemala seja rural, a urbanização está em aceleração.
Embora a língua oficial seja o espanhol, ela não é universalmente compreendida entre a população indígena; ainda são faladas várias línguas maias, em especial em áreas rurais.
Os acordos de paz assinados em Dezembro de 1996 determinam a tradução de alguns documentos oficiais e de materiais de voto para várias línguas indígenas.






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7 – INDICADORES HISTÓRICOS DA GUATEMALA DE 1950 A PRESENTE DATA

O golpe de estado que abalou a Guatemala em 1954 foi uma operação denominada PBSUCESS organizada pela CIA para derrubar Jacobo Arbenz Guzmán, o presidente democraticamente eleito da Guatemala. O governo Arbenz introduziu uma série de reformas que a inteligência americana considerou como atribuídos aos comunistas e de influência soviética, como a apreensão e expropriação de terras não utilizadas que corporações privadas retiradas há muito tempo, e distribuição dessas terras para camponeses. Este foi o primeiro golpe de estado promovido pela CIA na América latina.
Isso fomentou o receio nos EUA de que a Guatemala se tornaria o que Allen Dulles chamou de "uma praia Soviética na América" (uma posição inimiga para a invasão). Esta situação criou um impacto na CIA e na administração Eisenhower durante a época do Macartismo. O Presidente Arbenz promulgou essencialmente uma reforma agrária que antagonizava a multinacional norte-americana United Fruit Company, com interesses oligarquicos e influências na Guatemala, através de "lobbyings" nos EUA.
A operação, que durou apenas a partir de finais de 1953-1954, foi planejada para armar e treinar para um "exército de libertação" assumir o país, com cerca de 400 rebeldes sob o comando de um oficial exilado do exército guatemalteco o coronel Carlos Castillo Armas com uma coordenação ardil do complexo diplomático, económico e propaganda em grande parte experimental. A invasão foi precedida de um plano desde 1951, chamado PBFORTUNE para financiar e fornecer armas e suprimentos para as forças opostas ao presidente. Após a invasão a Operação PBHISTORY, a fim de dedicar-se à recolha de documentos para incriminar o governo Arbenz de fantoche comunista.
Ao longo das próximas quatro décadas após a derrubada de Arbenz, a sucessão de governantes militares iria criar uma guerra de contra-insurgência, que desestabilizou a sociedade guatemalteca. A violência causou a morte e o desaparecimento de mais de 140.000 guatemaltecos, e alguns ativistas dos direitos humanos, coloca o número de mortes tão elevado como 250.000. Em etapas posteriores deste conflito a CIA tentou, com algum sucesso reduzir as violações dos direitos humanos e parou um golpe em 1993 e ajudou a restaurar o regime democrático.

Em 1954, o sucessor de Arévalo democraticamente eleito presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz, foi deposto num golpe orquestrado pela CIA com apoio dos EUA. O coronel Carlos Castillo Armas foi instalado como presidente no mesmo ano e governou até que foi assassinado por um membro da sua guarda pessoal, em 1957. Substanciais evidências apontam para o papel da empresa americana United Fruit Company como fundamental neste golpe, uma vez que as reformas agrárias de Jacobo Arbenz estavam ameaçando os interesses da empresa, na Guatemala e tinha várias ligações diretas na Casa Branca e na CIA. Além disso, Arbenz era visto como comunista e pró-URSS pelos americanos.
Em 1958, após o assassinato de Armas, chegou ao poder o General Miguel Ydígoras Fuentes, mas a crise aumentou. A Guatemala obedeceu ao preceito dos EUA de romper relações com Cuba e, em seguida, autorizou o treinamento de 5.000 cubanos anticastristas no país, igualmente forneceu pistas de aterrisagem na região de Petén para no que se transformou mais tarde na fracassada invasão da Baía dos Porcos em 1961. Em troca dessa ação, a Guatemala teve suas dívidas, contraídas por Armas em 1954, perdoadas e um aumento na quota açucareira do país.
Em 1962, houve enormes manifestações de estudantes e trabalhadores, além dos grupos revolucionários que começaram uma guerrilha. O governo Ydigoras seria afastado em 1963, quando a Força Aérea atacou várias bases militares. O golpe foi chefiado por seu ministro da Defesa, o coronel Enrique Peralta Azurdia.



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Em 1966, Julio César Méndez Montenegro foi eleito presidente da Guatemala sob o lema "Abertura Democrática". Foi durante esse tempo que organizações paramilitares de direita, como o "Mão Branca" e o Exército Secreto Anticomunista, foram formados. Essas organizações foram os precursores do infame "Esquadrão da Morte". Os conselheiros militares das Forças Especiais do Exército dos Estados Unidos (Boinas Verdes) foram enviados para a Guatemala para treinar tropas e ajudar a transformar o seu exército em uma força moderna de contra-insurgência, que eventualmente tornou o mais sofisticado da América Central.
Antes da saída do governo Mendez, os militares ganharam influência e a separação social se aprofundou. O país caiu em anarquia e a violência aumentou.
A década de 1970 viu o nascimento de duas novas organizações guerrilheiras: o Exército de Guerrilha dos Pobres (EGP) e a Organização do Povo em Armas (ORPA), que começou e intensificou até o final dos anos setenta, os ataques de guerrilha que incluíram guerrilha urbana e rural, principalmente contra os militares e alguns dos apoiantes civis do exército.
Em 1979, o presidente americano, Jimmy Carter, ordenou uma proibição de todas as ajudas militares para o Exército da Guatemala, devido à generalizada e sistemática violação dos direitos humanos.
Entre 1979 e 1982, o estado de terrorismo foi patrocinado por ambos os lados: governo regular e insurgentes, aumentaram devido ao fato das zonas urbanas e as comunidades indígenas estarem plenamente envolvidas na revolta.
Em 1980, um grupo de Povos Indígenas Quiché tomou a Embaixada da Espanha para protestar contra massacres do exército no campo. O governo guatemalteco lançou um ataque que matou quase todos no interior, como resultado de um incêndio que consumiu o edifício. O embaixador espanhol, que sobreviveu ao incêndio, alegou que a polícia guatemalteca intencionalmente matou quase todos no interior e o conjunto do incêndio foi apagar os traços de seus atos. Como resultado deste incidente, o governo da Espanha rompeu relações diplomáticas com a Guatemala. Este governo foi derrubado em 1982 e o General Efraín Ríos Montt foi nomeado presidente da junta militar, continuando a sangrenta campanha de tortura, desaparecimentos, e "terra queimada" durante a guerra. O país se tornou um Estado pária internacional. Ríos Montt foi derrubado pelo general Óscar Humberto Mejía Victores, que apelou para uma eleição de uma assembléia constituinte nacional, que levou a uma eleição livre em 1986, que foi ganha por Vinicio Cerezo Arévalo, o candidato do Partido da Democracia Cristã.
Em 1982, os quatro grupos guerrilheiros, EGP, ORPA, FAR e TPG, fundiram e formaram a URNG, influenciados pela guerrilha salvadorenha FMLN, pela FSLN da Nicarágua e pelo Governo de Cuba, a fim de se tornarem mais fortes. Como resultado, o Exército aumentou táticas de "terra queimada" no campo, mais de 45.000 guatemaltecos fugiram do outro lado da fronteira para o México.
Em Maio de 1988 uma tentativa de golpe foi frustrada. Os insurgentes, nessa altura, tinham mudado o seu plano de ação. Agora, em vez de tentar obter poder, pretendem forçar o governo a negociar. Mas Cerezo foi obrigado a obedecer ao exército e negou-se a qualquer diálogo com os insurgentes. O que fez com que seu partido fosse derrotado nas eleições presidenciais por Jorge Serrano Elías. Serrano tentou modernizar o Estado e desmantelar as reduzidas porções do exército mantidas pelos EUA. No início dos anos 90, o país estava mais calmo, se realizaram eleições limpas, foi proposto uma nova política externa e uma nova ordem institucional.







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A Guerra Civil da Guatemala, terminou em 1996 com um acordo de paz entre a guerrilha e o governo, negociado pela Organização das Nações Unidas através da intensa mediação por nações como a Noruega e Espanha. Ambos os lados fizeram grandes concessões. Os guerrilheiros desarmados receberam terras para trabalhar. Segundo a ONU, que patrocinou a Comissão da Verdade ("Comissão para a Clarificação da História"), as forças governamentais e paramilitares patrocinados pelo Estado foram responsáveis por mais de 93% das violações dos direitos humanos durante a guerra. Durante os primeiros 10 anos, a vítimas do terror patrocinado pelo Estado foram principalmente estudantes, trabalhadores, profissionais e oposição, mas nos últimos anos foram maioritariamente milhares de agricultores maias e não-combatentes. Mais de 450 aldeias maias foram destruídas e mais de 1 milhão de pessoas se tornaram refugiados internos e externos. Em certas áreas, tais como Baja Verapaz, a Comissão da Verdade considerou que governo guatemalteco promoveu uma política de genocídio contra determinados grupos étnicos durante a Guerra Civil.
Em 1999, o presidente americano Bill Clinton afirmou que os Estados Unidos estavam errados ao ter prestado apoio às forças militares guatemaltecas que participaram dos assassinatos a civis.


8 – INDICADORES CULTURAIS E RELIGIOSOS

A Guatemala é um país que presa pela valorização da cultura.
Em 1950 foi criado o Museu Nacional de História Natural, exatamente no dia 4 de Julho. Com finalidade de conservação ecológica. Nesse museu podem-se encontrar diversas raridades naturais da Guatemala.
No ano de 1952 foram inaugurados mais dois museus. Museu Julio Cesar de La Roca e o Museu Rojasianthe Superba, ambos voltados para a área da cultura e das fascinantes obras da natureza, como animais e árvores históricas.
Entre as décadas de 50 e 90 foram inaugurados centenas de museus, preservando a cultura e a diversidade natural do país.

A Cultura da Guatemala foi fortemente influenciada pela civilização Maia e pelos colonos espanhóis do século XVI. A influência indígena é também hoje um dos tesouros da região.
É um país onde podemos encontrar bibliotecas e museus, a maioria deles localiza-se na Cidade da Guatemala, onde podemos também encontrar a Biblioteca Nacional e um interessante Museu Arqueológico. Além disso, a cidade conta com um grande número de museus privados.
A literatura e a música também se destacam neste país. Na musica destaca-se a música Garifuna, uma música tropical com vários estilos, muitos dos quais resultantes da fusão entre a música européia e a música indígena.
A maior parte da população da Guatemala é descendente de nativos, alguns miscigenados com espanhóis. As representações artísticas levam em consideração esses fatores, os quadros retratam a cultura do povo guatemalteco, como danças, e hábitos como o plantio de milho.
Na culinária cotidiana da Guatemala o milho se mostra muito presente: Tortilhas, Tamalintas, Pishtones, Tacos, Enchiladas, Chuchitos, entre outros pratos têm o milho como ingrediente principal, em espanhol o milho é chamado “el maíz”, o grão Maia. Há grande variedade de feijões, pimentas e muitos outros pratos de ascendência cultural Maia. Dentre os pratos mais populares podemos listar;
Accras (bolinhos fritos de bacalhau);
Boudin (salsicha de porco muito temperada);
Carbes farcis (caranguejo da terra recheados);
Blaff (guisado de peixe com muitas especiarias);


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As sobremesas não perdem no sabor, dentre elas destacamos o arroz com leite, caldo de frutas de cajá e rosa da Jamaica, que inclusive traz benefícios para o corpo, facilitando a digestão.
Na música, um ritmo atualmente muito popular entre as população jovem guatemalteca é o reggaeton, um ritmo quente, cheio de batidas e que muitas vezes fala de amor.
Como cantores desses ritmos na Guatemala podemos citar: Dylan & Lenny e Wisin & Yandel.















































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9 – BIBLIOGRAFIA

http://pt.wikipedia.org/wiki/Guatemala

http://guatemala.costasur.com/pt/geografia-historia.html

http://www.museoscentroamericanos.net/guatemala_museos/guatemala_historia.htm

http://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Guatemala_em_1954

http://pqgustavo.blogspot.com/2010/10/cultura-e-historia-da-guatemala.html























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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Trabalho sobre o México - Antonio Alexandre Pacheco Bordalo

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé – Fafima
Curso: História





Trabalho sobre o México




Professor: Victor Tempone
Aluno: Antonio Alexandre Pacheco Bordalo
Matéria: América no Contexto Capitalista





O presidente Lázaro Cárdenas toma posse em 1934. Seu partido político governou o México durante décadas. Em 1938, ele promoveu a nacionalização das indústrias petrolíferas e elétricas, criando o Instituto Politécnico Nacional. Iniciou a reforma agrária, a distribuição gratuita de livros escolares e marcou a política mexicana até os dias atuais.
O sucessor de Cárdenas foi Manuel Ávila Camacho. Propôs criar facilidades para o investimento estrangeiro. Seu regime congelou os salários, reprimiu as greves e perseguiu os dissidentes políticos. Isso fez com que o partido do governo (PRI) traísse a herança da reforma agrária. Quem substituiu Camacho no poder da presidência, Miguel Alemán Valdés, ainda reforçou tal situação, protegendo a elite dos proprietários e latifundiários. Mesmo diante do pressuposto de que os regimes do PRI conseguiram crescimento econômico e uma certa prosperidade durante quase trinta anos após o término da Segunda Grande Guerra Mundial, a economia sofreu vários colapsos, com agitação política no final dos anos 1960.
Em 1976 e 1982 houve crises econômicas gravíssimas. Nelas o peso mexicano foi desvalorizado e até o ano 2000 era normal ocorrer a desvalorização da moeda, com recessão ao final de cada mandato presidencial, de seis em seis anos. Já a crise de 1994, atirou o país num caos econômico. Foi a mais grave recessão que o México teve em 50 anos.
Um terremoto de aproximadamente oito graus na escala Richter causou muitos prejuízos na cidade do México. Morreram entre seis mil e quinhentas pessoas a trinta mil pessoas.
Voltando à política, observa-se que com o fim da hegemonia do PRI, em 1995, o então presidente Ernesto Zedillo também se via confrontado por uma séria crise econômica. Na ocasião ocorreram manifestações na cidade do México e a presença militar em Chiapas. Isso dado ao surgimento do Exército Zapatista de Libertação Nacional, em 1994.
Zedillo promoveu reformas políticas e eleitorais, reduzindo a capacidade do PRI no poder. Após as eleições de 1988, foi criado o Instituto Federal Eleitoral (IFE), com a missão de certificar-se da lisura, da justiça e da legalidade das eleições. Ou seja, combateram-se assim as constantes fraudes eleitorais no México, praga que assolou toda a América Latina, inclusive o Brasil na época da República Velha.
No dia dois de julho de 2000 foi eleito presidente Vicente Fox Quesada. Ele era candidato presidencial do Partido da Ação Nacional (PAN) e sua vitória pôs fim à hegemonia de 71 anos do PRI na presidência.
Hoje em dia, as angústias devido às preocupações econômicas e sociais são geradas pelos baixos salários reais, precariedade dos empregos da maior parte da população, desigualdade da distribuição de renda e difícil acesso da população ameríndia à qualidade de vida.
Além do mais, o país vive em inflação, pois o governo se empenha para isso. Mas os problemas econômicos para facilitar o desenvolvimento continuam a afligir o México. No setor petrolífero e nas relações com os Estados Unidos da América há dificuldades. Inclusive, a corrupção, a violência e o narcotráfico também assolam esse pais nos anos mais recentes.
Constituição de 1917
O presidente do México é eleito pelo sufrágio universal direto para um mandato de seis anos, sem reeleição. Nessa república federativa é a Constituição de 1917 que é seguida, que rege as leis eleitorais.
Um Congresso representa o Poder Legislativo, com a eleição de duas Câmaras. Já o Senado tem 64 membros, eleitos para trabalhar durante seis anos. Há dois senadores para cada Estado e dois para o Distrito Federal.
Quinhentos deputados são eleitos por três anos. Eles vão para a Câmara. Senadores e deputados não são reeleitos. Em cada Estado um governador é eleito democraticamente para o tempo de seis anos. Já o governador do Distrito Federal é nomeado pelo presidente do México. Todos os cidadãos acima dos 18 anos podem votar, têm o direito de votar.
O Tribunal Supremo de Justiça é o mais elevado em distinção e poder no México. Ele tem 21 membros permanentes, nomeados pelo presidente. Cursos de Distrito compõem os outros corpos de justiça naquele país.
A política externa mexicana
Legalismo. Isso prevaleceu na política externa mexicana até a década de 1970. Na ocasião, o México possuía uma economia fechada, cujo paradigma de desenvolvimento seguia o pensamento no qual se valorizava a substituição de importações. Mesmo assim não se fomentava a aproximação econômica e comercial com atores externos. Era um sistema político centralizado, ficando a cargo da presidência e da Secretaria de Relações Exteriores conduzirem a política externa.
Com outra visão, o PRI (Partido Revolucionário Institucional) cultivava a tese da soberania interna e da não intervenção em prol da independência da política externa mexicana frente aos Estados Unidos.
Para o PRI, essas posturas só podem ser compreendidas tendo em vista a importância da história revolucionária mexicana e dos inúmeros desafios colocados à soberania e integridade territorial do país desde o século XIX, sobretudo por parte dos Estados Unidos, que invadiram territórios mexicanos e os anexaram como, por exemplo, a Califórnia e o Texas.
O desenvolvimento econômico e a estabilidade política eram, antes de 1970, os principais objetivos dos governos mexicanos. Não havia nesse país, ideais econômicos, políticos e estratégicos externos.
Além do mais, era arriscado ter envolvimento na política internacional devido à proximidade e dependência dos EUA. Num sistema internacional polarizado como quando na época da Guerra Fria, ficava difícil para o México se inserir na esfera internacional. Apesar disso, o México não cortou relações diplomáticas com Cuba em momento algum. Isso é sinal de independência.
Mesmo não possuindo interesses externos significativos, o México defendeu uma política externa própria no sistema interamericano. Inclusive na OEA (Organização dos Estados Americanos), havia espaço para afirmar um discurso de independência e autonomia frente aos americanos. Apesar disso, os discursos eram meramente diplomáticos, não havendo efeitos comerciais significativos.
Para se proteger das intervenções Norte-Americanas, o México divergiu dos EUA ao invocar na OEA, o direito internacional. Assim, os mexicanos quiseram valorizar o caráter de independência e autônomo de sua política externa. Tudo isso tinha consonância com a natureza revolucionária do regime.
Utilizando a tradição diplomática de aplicação dos princípios de não-intervenção, de auto determinação e de soberania, o México condenou as invasões na Guatemala em 1954, na República Dominicana (1965), além de ter rejeitado as imposições de sanções contra Cuba, não rompendo as relações diplomáticas com Havana.
Assim, a posição do México se manteve como anti-intervencionista. Mas em questões que os norte americanos consideravam cruciais, como o combate ao comunismo, os mexicanos ficaram do lado americano.
O México também se destacou no apoio ao Tratado de Proscrição de Armas Nucleares na América Latina e no Caribe (1967).
A política externa mexicana é analisada com averiguações e investigações nos períodos de 1970 a 2006, correspondendo ao mandato de seis presidentes (Echeverría, Portillo, De La Madrid, Salinas de Gortari, Zedillo e Fox).
Nos últimos 40 anos houve dois grandes momentos de reorientação da política externa mexicana: forte ativismo internacional na década de 1970 e a liberalização da economia em 1982.
A partir de então o México passou a se aproximar cada vez mais dos Estados Unidos, até culminar nos seis anos de Carlos Salinas de Gortari com a implantação do NAFTA. Nesse sentido, o governo Fox e o final do processo de transição democrática representaram mais continuidades do que mudanças com essa política externa iniciada a partir da década de 1980.
Mudanças importantes ocorreram sim no governo Fox, mas argumento que elas se restringiram à aceitação definitiva da internacionalização dos direitos humanos e da promoção democrática.
Entre os anos de 1970 e 1982, o México teve o perfil de uma potência média
O México passou a ter ambições de liderança até então desconhecidos nesse país. Isso se deu no governo de Echeverría (1970 – 1976). Nesse caso, houve rompimento com o tipo de política externa mais defensiva, ficando para os mexicanos um maior ativismo internacional.
Esse novo padrão de ativismo internacional respondia a circunstâncias domésticas, mas só foi possível também devido a um sistema internacional muito mais permissivo do que aquele do começo da Guerra Fria.
Frente aos sinais mais claros de esgotamento do modelo econômico de substituição de importações, e diante de uma crise de legitimidade política do regime, decorrente do massacre de estudantes em 1968 pelo exército na Cidade do México, Echeverría recorreu ao plano internacional para tentar aplacar as crises econômica e política internas.
Na esfera política, entretanto, era necessário melhorar as relações com a esquerda e restaurar a imagem progressista e democrática do país. No confronto com os estudantes esquerdistas, essa imagem ficou desgastada.
Assim, o governo mexicano procurou aproximar-se de Cuba e do Chile de Allende. O governo buscou apaziguar os setores de esquerda, além de distrair a atenção dos problemas domésticos.
Echeverría aumentou ainda de forma ampla o número de países com os quais o México tinha relações diplomáticas e econômicas, encorajando ainda esforços que buscavam a unidade econômica latino-americana, como no caso do Sistema Econômico Latino-Americano (SELA).
Entretanto, mais importante ainda que tais iniciativas, era a proposta de uma Carta dos Direitos e Deveres Econômicos dos Estados, que seria uma contrapartida à Declaração Universal dos Direitos do Homem. Tal Carta propunha uma nova ordem econômica internacional que, baseada na equidade, igualdade soberana, interdependência e cooperação, diminuiria as desigualdades do sistema internacional.
Em represália a tanta independência, o governo norte-americano resolve pôr fim ao bom relacionamento com os mexicanos e impôs uma taxa adicional de dez por cento em todas as importações e se recusou a isentar produtos mexicanos. Isso ocorreu em 1971.
Assim as grandes dificuldades econômicas do país recrudesceram. Inclusive, o modelo de substituição de importações precisava de financiamento para dar continuidade à produção de bens de capital.
A nova atitude do governo pretendia, então, diversificar a dependência do país, implementando uma política externa de diversificação nas relações internacionais mexicanas. Novos mercados eram buscados e estratégias de promoção de exportações foram desenvolvidas, enquanto aumentava a participação do governo na produção e regulação da atividade econômica.
Ou seja, havia intervenção do Estado na economia. Não havia o “laissez faire, laissez passer”. A política de diversificação da dependência, todavia, não produziu os resultados esperados e no final do governo o país vivia uma severa crise econômica. A dívida externa havia crescido, o peso mexicano tinha se desvalorizado, ocorria fuga de capitais, a balança de pagamentos tinha se deteriorado, e o investimento estrangeiro havia encolhido devido aos tons esquerdistas da política externa.
Também haviam fracassado as ambições de construir uma nova ordem econômica internacional, bem como as aspirações individuais do presidente de se tornar secretário-geral da ONU e de receber o prêmio Nobel da Paz.
Diante dos problemas financeiros, o governo de Portillo, que veio depois do governo de Echeverría, teve de aderir a um programa de austeridade econômica, promovido e gestado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entretanto, o governo Portillo (1976-1982) logo daria continuidade à política externa ativa do governo anterior, voltada à diminuição e combate das desigualdades internacionais nos fóruns multilaterais.
A descoberta de reservas petrolíferas no país e a alta dos preços do petróleo, no final dos anos 1970, permitiu ao México manter um elevado grau de protagonismo na esfera internacional, sobretudo no entorno regional.
O governo Portillo buscou reforçar as posições de influência mexicanas frente aos países da América Central. Graças à tolerância de Jimmy Carter – presidente democrata dos EUA – foi possível ao México retomar as atividades esquerdistas. Apoiou os sandinistas na Nicarágua, rompendo relações com o regime de Somoza.
A riqueza do petróleo dava a Portillo condições de fazer frente aos Estados Unidos e se posicionar a favor dos pequenos países da América Central. Agora Portillo poderia capitalizar a necessidade norte-americana das reservas de petróleo mexicano tanto como uma moeda de barganha na política para a América Central, como um meio de aumentar os níveis de empréstimos internacionais.
Mas a péssima gestão dos fundos de petróleo e o negativo cálculo das rendas futuras do negócio, além de um endividamento grande com fontes públicas e privadas de crédito e a repolarização ideológica com a ascensão de Reagan ao poder, fizeram com que o México abandonasse o papel de líder nas crises da América Central. Seu ativismo na política externa também foi deixado de lado. A despeito do interesse continuado na região, os problemas de dependência econômica e a necessidade de reestruturar a economia forçaram o México a assumir uma postura mais alinhada com os Estados Unidos, o que significou o fim do perfil de uma política externa de potência média.
Mesmo assim, o principal empreendimento de Portillo foi encorajar a mudança política na Nicarágua e em El Salvador, num momento em que a luta de guerrilhas se alastrava pela América Central no final da década de 1970. O governo mexicano apoiou a revolução sandinista na Nicarágua e, em menor extensão, o movimento guerrilheiro em El Salvador.
O México participou pela segunda vez do Conselho de Segurança da ONU, em 1981. Isso durante o governo Portillo. Antes disso, o país só havia participado desse conselho em 1946.
Somente no governo Fox, o México voltaria a ocupar um assento de membro não permanente no Conselho de Segurança. Isso levou à sensação de tensão para a relação com os EUA. É que a posição mexicana sobre a guerra do Iraque desagradava os interesses do Tio Sam.
Anos de 1982 a 2000: liberalização econômica e aproximação com os EUA
A elite governante do México, nos anos de 1980, decidiu por um paradigma de desenvolvimento econômico e de inserção internacional do país, que efetivaram e marcaram duradouramente a política externa mexicana.
Houve uma decisão pela liberalização econômica e abertura ao mercado internacional. Isso foi implementado no governo de De La Madrid, entre os anos de 1982 e 1988, fato que pôs em marcha a reforma econômico-estrutural, com a institucionalização de uma associação econômica formal com os EUA, negociada no governo Salinas (1988-1994), com demarcação da Nafta.
Os governos subsequentes, de Zedillo (1994-2000) e de Vicente Fox (2000-2006), também mantiveram tais tendências econômicas. Eles eram do Partido de Ação Nacional (PAN).
Devido à crise motivada pela dívida externa, De La Madrid propôs um processo de liberalização econômica. Em 12 anos (de 1982 a 1994), o México mudou radicalmente sua política econômica externa e adotou uma estratégia de transformações em prol das reformas neoliberais, além de sua aproximação com os EUA e implementação do Nafta.
Em 1982, o México estava imerso numa profunda crise econômica, a mais forte pela qual o país passara desde a década de 1930, causada, entre outros fatores, por uma recessão global, pela fuga maciça de capital, por uma dívida externa sem precedentes, por uma balança de pagamentos deficitária, recorde de desemprego e inflação galopante.
A dívida externa do México tinha aumentado de US$ 4,2 bilhões em 1970 para US$ 30 bilhões em 1977 e alcançava US$ 63,7 bilhões em 1981. Durante o verão de 1982 a situação se agravou ainda mais - com a queda do preço do petróleo, as receitas da venda de tal produto caíram 50% e a dívida chegou a US$ 84 bilhões.
O jeito encontrado pelo governo mexicano foi anunciar, em 1982, que não podia cumprir seus compromissos de dívida, especialmente com os Bancos Norte-Americanos.
Tanto os EUA quanto o FMI apoiaram o governo de De La Madrid, com o objetivo que este iniciasse um processo de recuperação. Para isso, seria necessário aplicar medidas como: liberalização econômica, cortes nas despesas públicas, aceitação dos planos Baker (1985) e Brady (1990) , que promoviam o neoliberalismo.
O governo De la Madrid implementou medidas de liberalização comercial como parte desse programa de estabilização econômica, reduzindo tarifas de importação e eliminando algumas barreiras não-tarifárias com vistas a facilitar importações, na tentativa de controlar a inflação que começava a fugir do controle.
Assim, dentre os esforços que se voltavam ao ajuste macroeconômico, se inseria o processo de liberalização comercial unilateral do México e a entrada do país no GATT em 1986.
Foi impactante sobre a política externa mexicana o esgotamento do modelo de desenvolvimento econômico daquele país. Isso não se restringe ao governo de De La Madrid, mas também no governo Salinas há um aprofundamento desse esgotamento e a introdução de novas mudanças.
O Presidente Salinas, com a finalidade de reanimar a economia e de legitimar o regime do PRI, bem como seu próprio governo – abalado pelo escândalo de suspeitas de fraude eleitoral na eleição de 1988 que levou Salinas ao poder – decidiu realizar uma mudança substantiva na orientação da política exterior do México .
A crise do modelo econômico protecionista e o grave problema da dívida externa, levaram o governo mexicano a abandonar a estratégia que buscava a manutenção de um âmbito de autonomia relativa frente aos Estados Unidos em favor de uma política externa de integração do sistema produtivo mexicano com os Estados Unidos.
Enquanto no plano político o andar da carruagem levava o México gradual e lentamente à democratização, na esfera econômica a verdade era uma absoluta abertura econômica doméstica: esse descompasso interno entre a liberalização econômica e a liberação política provocou impactos intensos e significativos na política externa mexicana Isso criou contradições na forma como eram tratados aspectos econômicos e políticos no âmbito das relações internacionais do país – surgiu uma política multilateral ambivalente, marcada, de um lado, por um compromisso ativo com negociações sobre assuntos econômicos e questões tradicionais de segurança, como desarmamento, enquanto que, de outro lado, existia uma posição mais defensiva e de baixo perfil relativa à promoção da democracia, direitos humanos e aos novos temas da agenda de segurança.
Quando se faz comparação entre a política externa mexicana entre o governo atual e os governos anteriores, conclui-se que a partir da década de 1980 houve uma política externa nova. O nacionalismo revolucionário convivia com o pragmatismo econômico, causando uma contradição na maneira de tratamento dos setores políticos e econômicos da política externa.
Passou-se a considerar quesitos como a globalização econômica, a abertura do mercado, os fluxos de capital internacional. Porém, houve permanência quanto ao fato de se resistir aos novos condicionantes políticos e sociais da globalização, como, por exemplo, o surgimento de redes transnacionais de atores não-governamentais e o fortalecimento de mecanismos de promoção internacional da democracia e dos direitos humanos.
Ainda que se tenha assistido nos governos do PRI de De la Madrid, Salinas e Zedillo a uma política externa em acordo com os princípios de abertura econômica neoliberal, o mesmo não ocorria em semelhante grau no âmbito político. Vários autores lembram que se esperava alterar o modelo de desenvolvimento e o sistema econômico sem que isso afetasse a estrutura política do país (Meyer, 1996; Velasco, 1999; Rangel, 2004).
A política externa, que antes era ideológica e centrada nos ideais políticos, foi afetada pela liberalização econômica mexicana. Com isso, abandonou-se o discurso e a ideologia do nacionalismo revolucionário, promovidos pela revolução de 1917. Chegara a hora e a vez de se aceitar princípios do livre-comércio e da cooperação institucionalizada com os Estados Unidos. Disso resultou uma ativa política econômica multilateral e uma maior aproximação com os países desenvolvidos, que culminaram no ingresso do México na OCDE , em 1994.
O ceticismo e a oposição do México a respeito do emprego de instituições multilaterais com propósitos políticos, constituiu-se num modo encontrado pelo país para fazer face ao sistema internacional durante a Guerra Fria. Isso se deu para evitar uma maior vigilância externa do processo de transição política doméstica.
Entretanto, para controlar as crescentes críticas externas, para manter a boa imagem internacional do país e, além disso, para lidar com um contexto de maior diversidade e oposição políticas domésticas, o governo Zedillo, e mesmo antes dele, o governo Salinas, em menor grau, tiveram de relutantemente começar a aceitar as questões da democracia e direitos humanos na agenda de política externa do país.
A democracia e os direitos humanos se tornaram uma bandeira da política externa mexicana. Inclusive, Fox iniciou uma política externa inédita: sua mudança não foi ocasionada pelos palanques e disputas eleitorais de 2000, mas ocorreu num processo de mudança qualitativa. A mudança da política externa já estava em operação bem antes da chegada do PAN à presidência. Foi na década de 1980 que ocorreu a maior fissura política e econômica daquele país.
É que a ascensão do candidato do PAN à presidência permitiu encerrar o ciclo de reticências e ambigüidades quanto à nova agenda política do pós Guerra Fria, concluindo a abertura da agenda internacional do país à promoção da democracia e direitos humanos, que já havia começado nos governos anteriores, como resultado de pressões domésticas e internacionais.
Vicente Fox (2000 a 2006)
Na década de 1980, uma grande onda democrática chegou às praias dos países da América Latina e o México se juntou a esse novo movimento relativamente cedo, via promoção de uma reforma eleitoral liberalizante, em 1977.
No entanto, a demorada transição democrática, que levou mais de duas décadas em muitas nações latinas, prolongou a democratização. Porém, alguns países latino-americanos entraram na década de 1990 já como governos democráticos.
No México os processos de crescimento eleitoral da oposição e de abandono do controle autoritário sob as instituições eleitorais pelo PRI estavam em gestação desde o início da década de 1980, mas foi só no final do decênio, sobretudo depois das eleições de 1988, que eles se aceleraram, até culminarem no governo Zedillo, nas reformas eleitorais definitivas de 1996 e na perda da maioria de cadeiras do PRI na Câmara dos Deputados em 1997.
Vicente Fox não foi o iniciador da mudança política do país. Foi, tendo como parâmetro o longo processo de transição democrática no México, o resultado da mudança política, representando o momento de alternância do poder no México.
A chegada de Fox à presidência é o resultado acumulado de um longo processo de mudanças políticas prévias e também de transformações profundas, como no plano econômico, que o país vinha sofrendo desde a década de 1980, a partir dos governos dos presidentes De la Madrid (1982-1988), Salinas (1988-1994) e Zedillo (1994-2000).
Apesar do fato de a eleição para presidente do México, no ano 2000, ter marcado como um substancial ponto de inflexão no demorado processo de democratização no regime, o resultado dessa eleição não significou o início da democratização política no México.
A vitória de Fox só foi possível graças a importantes mudanças prévias nas relações entre o Estado e sociedade e graças, ainda, a importantes reformas institucionais anteriores, sobretudo no plano eleitoral.
É um mito dizer que grandes mudanças na política externa mexicana começaram a ocorrer depois do ano 2000, apesar de o discurso oficial das autoridades do PAN insistirem nessa afirmação.
A consolidação do processo de democratização do México levou, de fato, a uma expansão da agenda internacional do país e à inclusão de novas prioridades nas relações internacionais do México, mas se observam marcantes continuidades com a política externa dos governos anteriores – comércio e finanças continuaram a ser temas centrais da agenda do país, o que demonstra a centralidade da dimensão econômica nas relações internacionais do país e a relação bilateral com os Estados Unidos se intensificou ainda mais, enquanto que o distanciamento do país frente à América Latina foi ainda mais ampliado, padrão em curso desde a década de 1990.
Houve proliferação de novos atores governamentais e não-governamentais para influenciar a política externa, mas mesmo com a agitação interna, a tomada de decisões permaneceu centralizada no Executivo. Foram mantidos os mesmos padrões de burocratização política, com centralização na Secretaria de Relações Exteriores. Isso se deu desde a liberação econômica.
O governo Fox atribuiu à política externa um papel mais importante dentro da lógica do processo de consolidação da democracia. No Plano Nacional de Desenvolvimento (2000 – 2006), ele anunciou que a política externa teria papel central e primordial no novo projeto de governo.
Além disso, as reformas democráticas internas seriam ancoradas, sustentadas e apoiadas na efetivação de compromissos com os instrumentos internacionais de defesa dos direitos humanos e de promoção da democracia.
Assim, a política externa que nos governos anteriores tinha possuído a função de garantir a estabilidade e unidade nacional, sendo válvula de escape para as pressões nacionalistas, ganhava agora novas funções e não mais precisava se apoiar na defesa de intenções como a não-intervenção para proteger de discursos agressivos ou críticos externos um sistema político que até então havia sido autoritário.
A posição tradicional do México frente a Cuba também sofreu alterações com essa ênfase nos direitos humanos e democracia: apesar do custo do conflito diplomático com Cuba e dos desacordos e tensões domésticas com os partidos de oposição no Congresso, o governo mexicano votou em 2002, 2003, 2004 e 2005 a favor de resoluções na Comissão de Direitos Humanos da ONU que solicitavam ao governo de Cuba permitir a visita de um relator especial para analisar a situação dos direitos humanos naquele país. Os governos anteriores do PRI haviam tradicionalmente se abstido em votações desse tipo referentes a Cuba.
Por fim, uma análise, ainda que breve, como a que se propõe aqui sobre a política externa foxista, não estaria completa sem uma rápida apreciação de seus sucessos e fracassos diante dos objetivos enunciados pelo governo.
Como disse o secretário de relações exteriores do México, nos anos de 2000 a 2006, dois eixos norteariam a política externa: maior aproximação com os Estados Unidos e maior presença em fóruns internacionais, com o objetivo de colocar o país no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Buscava-se assim aprofundar o NAFTA, executar acordo migratório com os EUA e lutar contra as drogas. Fox buscou estabelecer uma relação estratégica profunda e estreita com a América do Norte, propondo a seus sócios de integração regional aproximar o esquema original do NAFTA ao modelo europeu de integração.
Isso se realizaria através de adoção de mecanismos de financiamento ao desenvolvimento do México e da flexibilização dos controles de migração para a regularização gradual do mercado de trabalho entre os três países: EUA, México e Canadá.
O aprofundamento da integração era visto como uma porta de acesso ao resto do mundo e também faria do México o elo indispensável entre o Norte e o Sul no processo de integração das Américas. Todavia, a recepção dos parceiros regionais foi fria, e o processo de integração se aprofundou de fato apenas em aspectos de segurança ligados, sobretudo, com controle fronteiriço, combate ao terrorismo e troca de informações entre agências de segurança.
A ASPAN (Aliança para a Segurança e Prosperidade da América do Norte), firmada entre os três sócios do NAFTA em 2005, condensa as preocupações da agenda de segurança nacional norte-americana à qual o México teve que se adequar; a aliança é um compromisso dos três países para fechar as fronteiras da região ao terrorismo, crime organizado, drogas, tráfico de pessoas e contrabando.
A expectativa de construção de uma relação estratégica com os Estados Unidos foi afetada negativamente pelo impacto dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 e por uma série de incidentes e desentendimentos diplomáticos que ocorreram desde o final de 2001 entre os dois países, como, por exemplo, a demora do México em manifestar apoio aos EUA em face da luta contra o terror após os atentados e, ainda, a posição mexicana no Conselho de Segurança, em 2003, contrária à invasão do Iraque. Isso significa que o México teima, contra todas as contrariedades políticas e econômicas, em ser uma nação independente.
O governo Fox queria fazer reformas no sistema migratório entre México e EUA, porém os ataques terroristas de 11 de setembro acabaram com qualquer perspectiva de sucesso dessa estratégia, já que na guerra global contra o terrorismo, a fronteira do México passou a interessar ao governo norte-americano pela perspectiva da segurança e não da mobilidade de mão-de-obra e da legalização dos trabalhadores mexicanos não-documentados em solo norte-americano.
A agenda de segurança bilateral, focada até 2001 no narcotráfico, passou a ter como centro o terrorismo e o controle fronteiriço; a imigração se tornou uma questão de segurança nacional nos Estados Unidos, o que impossibilitou o avanço da proposta mexicana quanto à imigração, batizada pelo governo Fox de encillada completa. Em vez de um acordo migratório abrangente, o que se viu de fato foi a construção de um muro na fronteira entre os dois países e o aparecimento do Minutemen Civil Defense Corps .
Sem ser do jeito que agradaria ao regime mexicano, houve uma maior aproximação entre EUA e México. É que o México queria um aprofundamento do NAFTA, segundo os padrões europeus, com um acordo migratório abrangente.
Apesar do clima festivo entre Bush e Fox, os temas de segurança nacional do governo de Washington dominaram a agenda bilateral e o NAFTA restringiu-se à situação fronteiriça de inteligência (2002). Uma vitória mexicana que vale assinalar, porém, foi a suspensão, em 2002, do processo de certificação da luta contra as drogas pelo Congresso norte-americano para o caso mexicano.
No governo de Vicente Fox assistiu-se ao afastamento gradual do México de uma relação mais próxima com os países latino-americanos, devido à ampliação da relação com os EUA, na década de 1990.
O próprio abandono do termo América Latina em favor de América do Sul parece sintomático desse processo. Nesse sentido, as dinâmicas hemisféricas cada vez mais se concentram em dois pólos: América do Norte e América do Sul, divisão essa que não fazia sentido nenhum antes da entrada em vigor do NAFTA.
Antes um ator chave nas agendas políticas latino-americanas, como quando da sua atuação no grupo Contadora, por exemplo, o país distanciou-se progressivamente da América do Sul em especial, visto que mantém ainda fortes interesses na América Central, como manifestado no Plano Plueba-Panamá .
Muitos países latino-americanos consideram as posições mexicanas muito próximas das defendidas pelos Estados Unidos. Apesar de o discurso oficial referir-se à importância da América Latina para o México, boa parte do prestígio que esse país gozava na região no passado não existe mais.
As crises reiteradas com Cuba durante o governo Fox em decorrência do voto mexicano referente à situação dos direitos humanos na ilha, bem como as crises com a Argentina, durante a Quarta Cúpula das Américas, em 2005, e em seguida com a Venezuela de Chávez, que resultou da saída desse país do G-3 (acordo de livre-comércio entre México, Colômbia e Venezuela) reafirmaram em boa medida a imagem de que o México estaria alinhado antes com os interesses norte-americanos.
Isso gerou desconfianças na região, sobretudo do Brasil. Os presidentes mexicanos continuarão sempre a viajar para o Sul, mas é a relação com o Norte que de fato estruturará a diplomacia mexicana.
As afinidades culturais com a América Latina e o desejo sempre presente nos discursos oficiais de diminuir a dependência frente aos Estados Unidos – em boa medida herança do nacionalismo revolucionário – permeiam a política externa mexicana, mas há poucos motivos para se acreditar que as relações entre o México e a América do Sul, em especial, assistirão a um aprofundamento.
Recordando as substanciais mudanças ocorridas na política externa da década de 1980, observa-se que elementos tradicionais convivem com elementos mais novos nas relações internacionais mexicanas.
A linguagem e o discurso nacionalista dos princípios da política exterior, em especial, têm ainda grande peso e são constantemente mobilizados tanto pelo governo quanto por partidos políticos de oposição e outros atores sociais.
Entretanto, houve enfraquecimento da tradição diplomática que defendia os princípios de autodeterminação, de soberania interna e de não-intervenção.
Mesmo no governo Fox, que adotou a democracia e os direitos humanos como prioridade da política externa, persistem reservas quanto a casos de intervenção humanitária e participação em operações de manutenção de paz.
O artigo 89 da Constituição dos Estados Unidos Mexicanos lista os princípios tradicionais da política externa mexicana, quais sejam: a autodeterminação dos povos, a não-intervenção, a solução pacífica de controvérsias, a proscrição da ameaça e do uso da força nas relações internacionais, a igualdade jurídica dos Estados, a cooperação internacional para o desenvolvimento, e a luta pela paz e segurança internacionais.
Mario Ojeda Gomes (2006) argumenta que, após a Segunda Guerra, surgiu entre o México e os Estados Unidos uma regra tácita, um “acordo para discordar”, segundo o qual o México discordava dos Estados Unidos em questões fundamentais para o México, mas não necessariamente importantes para o governo norte-americano, enquanto cooperava em questões essenciais para os Estados Unidos que implicavam poucas vantagens para o México.
Esse acordo tácito só pode ser explicado pelo interesse norte-americano em assegurar a estabilidade do México – os Estados Unidos compreendiam que boa parte dos desacordos e posturas mais críticas do governo mexicano se destinava ao “consumo interno”.
Eram orientados para apaziguar grupos domésticos mais à esquerda com o discurso da independência e autonomia da política externa. Esse mesmo interesse pela estabilidade doméstica mexicana explica ainda a ausência de críticas fortes do governo norte-americano ao México, dado ao temor de que isso pudesse ser interpretado como uma forma de intervencionismo, o que poderia causar distúrbios no país vizinho.
Um exemplo claro do silêncio dos Estados Unidos frente ao México ocorria na questão da democracia, já que interessava mais um regime autoritário estável comprometido com a luta contra o comunismo – e depois com as reformas neoliberais – do que um regime democrático instável. Em 1988, por exemplo, quando ficou claro que mais democracia no México significaria a vitória do partido de esquerda PRD, o governo norte-americano não hesitou em aplaudir a vitória controversa de Salinas, do PRI, comprometido com as reformas neoliberais.
É interessante notar a origem dos vetores transformadores da política externa nesses dois momentos. Enquanto em 1970 a mudança ocorre em decorrência de pressões políticas e econômicas domésticas, em 1982 a natureza das pressões é essencialmente externa e de ordem econômica.
O movimento estudantil e outros grupos sociais exigiam um sistema político mais democrático e aberto. O governo mexicano se opôs, por exemplo, a uma série de medidas que a OEA (Organização dos Estados Americanos) tomou com a finalidade de promover e defender a democracia no hemisfério, dentre as quais se destacam o “Compromisso de Santiago com a democracia e a renovação do sistema interamericano”. Este buscava estabelecer os mecanismos de atuação da OEA no caso de golpe de Estado ou outra forma de interrupção da democracia num de seus membros, e a Resolução 1080 de 1991, que estabelece mecanismos para a adoção de medidas a respeito de ameaças contra a democracia no Hemisfério.
O governo mexicano recusou-se a aceitar a nova agenda de segurança do pós-Guerra Fria, que insinuava o uso da força militar, em último caso, em questões como narcotráfico, direitos humanos, devastação ambiental e democracia.
Ainda que o tema dos direitos humanos e da democracia não seja novo na política externa mexicana, já que nos governos Salinas e Zedillo foram feitas concessões na temática, como a aceitação da presença de observadores eleitorais internacionais e mesmo de uma cláusula democrática no acordo comercial com a União Européia, é preciso lembrar que nesses casos as mudanças na posição do governo foram causadas por pressões internacionais, como a da rede transnacional de direitos humanos
A mudança qualitativa da política externa do governo Fox foi a de ter inserido esses assuntos de forma espontânea como prioridades da agenda internacional mexicana. O México foi o único país latino-americano que se recusou a romper relações diplomáticas com Cuba durante a Guerra Fria, e teve tradicionalmente uma postura simpática com o regime de Fidel.  
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

CUBA - por Alessandro Guerra Mendonça

Cuba
1950 – 2011



Alessandro Guerra Mendonça
2011





Sumário

1- Introdução ------------------------------------------------------------------------------ 3
2- Digreção sobre a História de Cuba -------------------------------------------------- 4
3- Período pré Revolução ---------------------------------------------------------------- 7
4- A Revolução Cubana ------------------------------------------------------------------ 9
5- A Construção de um Novo País ----------------------------------------------------- 13
6- Desenvolvimento e Declínio do Socialismo --------------------------------------- 16
7- Conclusão ------------------------------------------------------------------------------- 20
8- Bibliografia ----------------------------------------------------------------------------- 21


































1 – Introdução

Este trabalho faz parte do cumprimento das avaliações da disciplina “História da América no Contexto Capitalista” da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé.
O objeto em foco é dissertar sobre a história de Cuba no período de 1950 aos dias de hoje. A linha teórica a ser seguida será a abordagem dos fenômenos políticos, sociais e econômicos de Cuba e sua inserção nos contextos internacionais desta natureza, a saber: a expansão marítimo-comercial dos séculos XV e XVI, na qual os países europeus “descobriram” a América; o imperialismo norte-americano a partir do século XIX; e a Guerra Fria. Esperamos deixar claro que Cuba fora o país latino-americano onde os contornos das conjunturas internacionais, bem como os problemas daí derivados, foram os mais agudos da América, e que a superação dos mesmos é prova do sucesso da Revolução Cubana e do socialismo. Para isso, embora tenhamos um recorte temporal específico, precisaremos fazer uma pequena digressão a cerca da história cubana, pois sem ela ficaríamos carentes sobre a significação dos fenômenos sociais e dos processos históricos em Cuba. A partir daí, trataremos sobre o período que antecedeu a Revolução de 1959, a Revolução propriamente dita, a construção de um novo país sob o sistema socialista, e o desenvolvimento e declínio do mesmo.













2 – Digressão sobre a História de Cuba

Antes de entrarmos no período foco deste trabalho, ou seja, entre 1950 e 2011, é preciso fazer uma pequena digressão a respeito da história de Cuba. Isso se faz necessário devido: i) a classificação da história do ponto de vista cronológico não coincide efetivamente com o início e o fim dos processos históricos de modo que possamos fazer um recorte temporal exato que os explique, ou seja, o estabelecimento de datas e marcos para registrar os acontecimentos históricos têm apenas o sentido de facilitar a localização daqueles processos no tempo. ii) isso se deve ao fato de que os fenômenos sociais não surgem nem desaparecem de forma instantânea, com recortes exatos no tempo, ou seja, os fenômenos sociais possuem raízes legadas de conjunturas passadas que podem conferir maior ou menor grau de influência no presente. iii) mesmo acontecimentos demasiado afastados do período em análise podem legar à determinada sociedade características que estarão presentes na mesma de forma peculiar e marcante, ou seja, fenômenos sociais podem preencher a estrutura das relações políticas, sociais e econômicas de determinada sociedade mesmo já tendo sido dissipados, como por exemplo, a exploração colonial e a escravidão típica dos países latino-americanos, fenômenos que, embora abolidos, deixaram sequelas ainda hoje significativas para as sociedades que conviveram com eles.
Cuba tem sua história moderna, assim como toda a América Latina, inserida em três contextos internacionais amplos, ocorridos em períodos distintos, porém determinantes regionalmente: o primeiro se refere ao processo de expansão colonialista das potências européias, encabeçado, sobretudo por Espanha e Portugal, a partir do século XV; o segundo ao imperialismo norte-americano a partir do século XIX com a manifestação da doutrina Monroe, “A América para os americanos”; e o terceiro, a Guerra Fria. Esse retorno demasiado longínquo, dado o recorte temporal desejado, tem importância fundamental no estudo sobre Cuba e toda América Latina, pois neste momento serão lançadas as raízes de uma nova história – nova na medida em que toda a região e as sociedades autóctones sofreram mudanças irreversíveis, quando não destruídas e apagadas da história no caso da segunda, por ocasião da chegada dos países europeus à América – raízes estas que possuem grande papel na significação da história recente destes países.
O objetivo das potências européias no processo colonizador iniciado no século XV era, a princípio, pilhar tudo o que fosse possível e num segundo momento instalar nas novas terras empreendimentos produtores de artigos tropicais primários destinados ao mercado europeu ou para suprir a saga colonialista. Cuba fora o principal entreposto entre toda a América Central e a Europa, cobiçada por todos os colonizadores, piratas e corsários, e dada a sua localização estratégica, se tornou uma forte praça militar. A partir do século XVIII, com a penetração da Inglaterra, devido à quebra do monopólio de comercialização com a Espanha, a monocultura da cana-de-açúcar é introduzida. Para isso lançava-se mão da ocupação das terras em larga escala através do arrasamento das florestas nativas, da escravização da população indígena local e, posteriormente, da introdução do escravo africano. Essa temática foi a pedra de toque durante toda a ocupação européia na América, assim, claro está que o legado não poderia ser diferente: o extermínio da população autóctone, a miséria, a dependência política e econômica, o atraso tecnológico, o preconceito racial, a degradação ambiental, a fragilidade das instituições públicas, o antagonismo entre classes, a independência em termos jurídicos, mas não políticos e econômicos, a soberania frágil etc. Estes aspectos estão presentes em todos os países da América Latina, porém em Cuba ganharam formas mais expressivas, assim como sua superação.
O processo de independência de Cuba possui grande relevância para compreendermos sua história recente. Foi neste momento que a ilha se livra do colonialismo espanhol e cai nas mãos do imperialismo norte-americano. A luta pela independência cubana se inicia em 1895, liderada por José Martí, Máximo Gómez e Antônio Maceo, com um exército formado sobretudo por escravos libertos. A Espanha, de todas as formas, tentou impedir este empreendimento, infligindo as maiores atrocidades possíveis, inclusive à população civil: estima-se em 300 mil o número de mortos no processo de independência para uma população de pouco mais de um milhão e meio de habitantes .
Ao início do século XIX, a história da colonização na América Latina recebe um novo componente: a declaração do presidente Monroe “A América para os americanos” deixa claro que os EUA têm o interesse de afastar as potências européias, que a essa altura já haviam fatiado a África e a Ásia, para manter o controle da região e torná-la sua área de influência, o que logo acontece com o Caribe. Em meados do século XIX os EUA já eram o principal parceiro econômico de Cuba, muito embora a colônia pertencesse à decadente Espanha, e neste sentido vê na guerra de independência cubana a oportunidade de se apoderar definitivamente da ilha, forjando um ataque ao encouraçado Maine de sua própria marinha e atribuindo o fato às forças espanholas quase derrotadas. Com esse pretexto e o pseudo apoio a Cuba, os EUA realizam sua intervenção militar na ilha, roubando dos cubanos a autonomia da vitória pela independência que se deu com a expulsão dos espanhóis em 1898, e inaugurando o novo imperialismo a que Cuba ficaria submetida. Assim, os EUA conseguiram evitar o avanço da presença inglesa, como ocorreu com outros países recém saídos do domínio colonial português e espanhol, iniciando o processo de construção de sua hegemonia na América Latina, e concretizavam sua ambição de anexar a ilha do Caribe, já demonstrada há muito tempo, como declarou ao início do século XIX o presidente Jefferson: “Devemos colocar a seguinte questão: desejamos adquirir para nossa Confederação algumas províncias hispano-americanas?...Confesso sinceramente que sempre fui de opinião que Cuba seria a aquisição mais interessante que poderíamos fazer para juntar ao conjunto de nossos Estados...O domínio desta ilha e da Florida nos daria o controle do Golfo do México e dos países do istmo...” .
O EUA mantiveram a ocupação da ilha até que a constituição cubana fosse aprovada com várias emendas que lhes garantiam vantagens econômicas, o direito de instalar bases militares, como a base no Estado de Guantánamo que lá está até hoje, entre outras medidas que cerceavam a soberania de Cuba. Paradigmático dessa postura é o artigo III, que assim prescreve: “O Governo de Cuba aceita que os Estados Unidos possam exercer o direito de intervir para preservar a independência cubana e a manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade...” .
A dependência econômica de Cuba diante dos EUA recrudesceu sua condição de monocultura exportadora de cana-de-açúcar. A produção do açúcar respondia apenas aos estímulos e interesses da economia norte-americana, que impedia qualquer possibilidade de diferenciação, industrialização e autonomia econômica. “Em pouco tempo, 3/4 do comércio exterior de Cuba se faziam com o seu novo e poderoso tutor” . “Cuba comprava dos Estados Unidos não só automóveis e máquinas, produtos químicos, papel e roupa, mas também arroz e feijão, alho e cebola, banha, carne e algodão” . Este desequilíbrio nas relações comerciais concorria para manter a dependência de Cuba, ou seja, o peso de suas exportações para os EUA era de extrema relevância para sua economia, ao passo que as exportações deste para Cuba não possuíam relevância econômica diante de sua grande economia, fenômeno este característico em toda a América Latina. Este fato era agravado devido à economia cubana ser baseada apenas na monocultura canavieira, pois as oscilações do preço do açúcar no mercado internacional e da cota anual importada pelos EUA a afetavam sensivelmente, o que tornava a dependência deste uma realidade necessária. No âmbito político, o Estado era ocupado alternadamente pelas forças conservadoras locais pró Tio Sam, todavia o poder definitivo cabia a este, e sempre que via seus interesses ameaçados não hesitava em adotar sua política intervencionista, ou Big Stick, principalmente através de meios militares, política essa inaugurada com Theodore Roosevelt e garantida constitucionalmente em Cuba. A dominação norte-americana, todavia, não se limitava às esferas econômicas e políticas, mas também no plano social, cultural e ideológico, ou seja, através da internalização da cultura e das ideologias fundia-se no seio sociedade cubana a ideia que o alinhamento e submissão aos EUA eram necessários e inevitáveis. Completava-se assim a construção da hegemonia norte-americana sobre Cuba, iniciado através de força militar e econômica.

3 – Período pré Revolução

A dominação econômica e política a que Cuba estava submetida criava profundos problemas na sociedade. O sucesso da Revolução bolchevique de 1917 introduz ideias que incrementam as manifestações populares, sobretudo dos trabalhadores das usinas de açúcar e fábricas de tabaco, contrárias aos regimes subservientes aos interesses norte-americanos. Neste contexto surge a Federação de Estudantes Universitários de Cuba e a liderança de Julio Antonio Mella . Diante da conturbada conjuntura social, o imperialismo dos EUA, em aliança com os setores cubanos conservadores beneficiados por ele, se sustentava através de regimes cada vez mais autoritários. Em 1925 é instaurada uma violenta ditadura com a ascensão do General Geraldo Machado. Inúmeros líderes trabalhadores e estudantis são assassinados, entre eles Julio Antonio Mella, em 1929. A violenta repressão aos movimentos sociais e as consequências da crise econômica dos anos de 1930 tornaram a permanência de Machado no poder insustentável, fazendo-o abandonar o país em 1932. Neste ano surge na cena política a figura de Fulgêncio Batista liderando um golpe militar e colocando Grau San Martín à frente do governo cubano, que diante da penúria na qual a população vivia, bem como das agitações empreendidas, implementa várias reformas progressistas, como o estabelecimento da jornada de trabalho de oito horas e o direito de voto para as mulheres , que no entanto não são suficientes para amenizar as reivindicações por um governo aos moldes soviético e, sobretudo, anti-imperialista. As insurreições foram violentamente reprimidas por Batista que, com a renúncia de Grau San Martín em 1934, se torna a eminência parda por traz dos frágeis e curtos governos formados até 1940, quando ele mesmo convoca eleições e as vence. Seu governo é marcado, tal como os anteriores, pela subserviência aos EUA, corrupção, desemprego, inflação e perseguição aos movimentos populares e liberais. Seus sucessores, Grau San Martín novamente, e depois Prío Socarrás, seguem a mesma linha de governo. A alternância de presidentes, eventualmente opositores entre si, não significava mudança de projetos políticos e econômicos, mas apenas uma luta entre os setores conservadores da ilha que não pretendiam romper com a política de alinhamento automático com os EUA; somando-se a isso a corrupção, o abandono a que a população estava submetida, a repressão aos movimentos populares etc., e foi crescendo no seio da sociedade cubana a insatisfação e movimentos organizados como o Partido do Povo Cubano. Prevendo que não venceria o pleito presidencial contra o candidato deste partido, em 10 de março de 1952 Batista dá um golpe militar com o aval dos EUA, que temia a vitória de uma liderança popular cuja principal bandeira fosse a luta contra seu imperialismo. Com isso, o país se mantém mergulhado nos problemas já existentes, com o projeto político até então aplicado, porém agora com todas as possibilidades de luta democrática cerceadas, já que o Congresso e a Suprema Corte foram fechados, instituições públicas usurpadas, todos os poderes foram concentrados em Batista.

4 – A Revolução Cubana

A Revolução Cubana, ao contrário do que se possa imaginar, não foi obra apenas da consciência de Fidel Castro e seu grupo, pois existia na ilha toda uma atmosfera de revolta contra as arbitrariedades da ditadura Batista, bem como com uma extensa lista de problemas sociais e econômicos derivados, sobretudo, do imperialismo norte americano e da subserviência das elites locais. Foi através de Fidel, todavia, que este sentimento fora canalizado para um projeto organizado de derrubada de Fulgêncio Batista. Fidel Castro fora estudante de direito na Universidade de Havana, onde participou intensamente do movimento estudantil, sempre engajado nas ações por direitos sociais e contra o imperialismo norte-americano. Com a ascensão de Batista através do golpe de 1952, as formas de luta democrática desapareceram, outra chance não se apresentava que não as ações paramilitares. Dessa forma, em 1953, tem início a primeira grande ação de tentativa de tomada do poder pela via militar: o assalto ao Quartel Moncada, localizado em Santiago de Cuba, na parte oriental da Ilha, lado oposto ao da capital, onde se concentravam os principais contingentes militares. Cerca de 160 insurgentes atacaram o Moncada em 26 de julho daquele ano. A falta de organização, de equipamentos de comunicação e os precários recursos militares tornaram a ação desastrosa. O ataque havia sido descoberto por uma ronda, tirando assim seu caráter de surpresa, tendo os rebeldes sofrido inúmeras baixas, muitos sendo presos e posteriormente assassinados, e os que conseguiram escapar do combate se refugiaram na Sierra Maestra, entre eles Fidel e seu irmão Raul Castro, mas foram capturados em seguida.
Fidel assumiu sua própria defesa por ocasião do ataque ao Moncada, e descreveu-a num documento (seu discurso no julgamento) intitulado “A História me Absolverá”, no qual denunciava as arbitrariedades do governo Batista para com os rebeldes, mostrando que muitos não haviam sido mortos em combate, mas sim a sangue frio; invocava o direito de luta rebelde contra a tirania; denunciava a penúria na qual a população vivia; e apresentava as leis revolucionárias que depois se transformariam no programa do Movimento 26 de Julho, data do assalto ao Quartel Moncada. Fidel e os líderes da revolta, entretanto, foram condenados a 15 anos de prisão. Dois anos após a ação em Santiago de Cuba, aproveitando-se da abertura política promovida pelo governo, que decretava o fim da censura à imprensa e o retorno das garantias constitucionais, um grande movimento pela anistia aos presos que atacaram o Moncada forçou Batista libertá-los.
A organização e atuação contra o governo Batista se tornaram impossíveis; o policiamento sobre o Movimento 26 de Julho, o fechamento dos órgãos de imprensa que lhe davam apoio e a cooptação das instituições democráticas e demais forças políticas, fizeram o movimento abandonar a via democrática e se exilar no México para reorganizar a luta armada contra a ditadura, restabelecer a democracia, e combater o imperialismo norte-americano. A partir do exílio, o movimento iniciou grande campanha de propaganda revolucionária contra Batista, costurou alianças políticas com a burguesia cubana exilada – mais interessada em retomar seus privilégios do que instaurar um governo popular – com o Diretório Revolucionário e o Partido Socialista Popular, tendo o objetivo de obter o maior apoio político possível e recursos para a campanha militar, que era o grande ponto divergente entre estes grupos, já que o 26 de Julho defendia a luta clandestina de guerrilha rural, e os demais, as insurreições urbanas. No México, com poucos recursos e conhecimento militar, iniciaram seus treinamentos para a guerrilha. É neste momento que ao movimento são integradas duas personalidades de crucial importância: Ernesto Guevara, médico argentino que acabara de sair da Guatemala, onde participava da experiência democrática do governo Jacobo Arbenz - derrubado por um golpe militar apoiado pelos EUA – e profundo conhecedor dos problemas sociais dos povos latino-americanos, pois havia feito uma viagem de motocicleta por toda a América Latina; e Camilo Cienfuegos, jovem rebelde cubano também interessado na causa do 26 de Julho. Assumiram papéis simples no grupo, porém, posteriormente, se transformaram nos grandes personagens da Revolução ao lado de Fidel.
Em novembro de 1956, 82 guerrilheiros saíram do México com destino ao litoral sul de Cuba a bordo do iate Granma, barco com capacidade para transportar apenas de 20 pessoas. A viagem foi demasiado complicada, a superlotação de pessoal mais os equipamentos sobrecarregaram os motores da embarcação, e o mar agitado os fizeram permanecer sete dias no mar, e não os quatro previstos no planejamento. Dada a demora no desembarque, o exército desconfiou da ação devido às manifestações populares no oriente da ilha, que anunciavam o retorno de Fidel. Somando-se a isso, o esgotamento do combustível fez o grupo desembarcar em local diferente do esperado, sem o apoio dos grupos locais e numa região de mangue que dificultava a mobilização. Cansados, os rebeldes não se deslocaram imediatamente para a Sierra Maestra, e assim foram pegos de surpresa pelo exército, travando-se inesperadamente o primeiro combate do qual apenas 12 guerrilheiros sobreviveram. Ao se reagruparem em local seguro da Serra, todos se espantaram com o entusiasmo de Fidel, que afirmava que com aqueles homens e com aquelas poucas armas haveriam de vencer a ditadura.
Mas a Revolução não foi obra apenas desses homens: o Diretório Revolucionário, o Partido Socialista Popular e, principalmente, o Movimento 26 de Julho, construíam nessa conjuntura, a contra-hegemonia à ditadura Batista, com movimentos articulados nas esferas democrática e clandestina. A notícia de que Fidel havia sobrevivido ao ataque do exército, quando do desembarque do Granma, trazia euforia a um sem número de cubanos, pois ele representava o símbolo da resistência contra Batista e os EUA. Após chegarem à Sierra Maestra, os guerrilheiros passaram a conhecer mais a fundo a realidade do campesinato, ou seja, a exploração de seu trabalho, a violência dos latifundiários, e o conluio das autoridades com essa situação, efeitos de um modelo capitalista agroexportador controlado por interesses norte-americanos, e com a conivência do governo ditatorial de Batista, que deixava não só os camponeses, mas toda a população acuada e sem perspectiva de vida. Dessa forma, através da difusão do programa do Movimento 26 de Julho, que pretendia, dentre outras coisas, transferir a posse da terra para a população, expropriar os grandes latifúndios e integrar os pequenos produtores na indústria da cana-de-açúcar, a confiança dos camponeses foi sendo pouco a pouco conquistada. Ao mesmo tempo, o exército rebelde promovia ajuda médica, sanitária e de alfabetização, e o recrudescimento das ações contra a ditadura. Com isso, os camponeses passaram a auxiliar a guerrilha, deixaram de ser espectadores para se tornarem a principal personagem do triunfo da Revolução.
O movimento não possuía estratégias bem definidas: a tática era fazer da Sierra Maestra a base da guerrilha, muito embora houvesse em vários pontos da ilha focos insurrecionais, e através de pequenos ataques e sabotagens às forças de Batista, conquistar espaços e moral revolucionária. Através da adesão da população, sobretudo camponesa, e da propaganda revolucionária, a guerrilha se fortalecia, avançava pela região oriental da ilha, desmoralizava Batista e ganhava notoriedade internacional, como no caso do sequestro do campeão de automobilismo Juan Manoel Fangio em 1958, por ocasião do Grande Prêmio de Cuba que teve de ser suspenso .
A essa altura o exército rebelde já possuía grande contingente, sendo dividido em colunas, a primeira delas entregue a Che, a segunda a Raúl, a terceira a Juan Almeida e a última ao comando de Camilo Cienfuegos, ficando Fidel no comando geral da Revolução. A rebelião já ameaçava o regime ditatorial e, dessa forma, foram mobilizados dezenas de milhares de soldados numa ofensiva à Sierra Maestra, contando com blindados e aviões bombardeiros norte-americanos. A estratégia de resistência dos rebeldes, no entanto, infligiu ao exército de Batista grandes perdas humanas, físicas, materiais e psicológicas, além de reforçar a estrutura rebelde com os armamentos e materiais militares expropriados. Diante dos abalos sofridos por Batista, a guerrilha passava da posição defensiva para a ofensiva, e assim as colunas de Raúl e Almeida foram destacadas para reforçar as posições orientais, já praticamente livres, e iniciar o trabalho humanitário de construção de escolas e hospitais; já as colunas de Che e Camilo se mobilizaram para o ocidente, com os objetivos de dividir a ilha em duas partes, declarando a oriental sob comando do exército revolucionário, e avançar em direção a Havana, capital do país. Neste momento, Batista já estava desesperado. Convocou eleições fraudulentas, assassinou presos políticos, e tentou sua última cartada para frear a coluna de Che que avançava em direção à capital, enviando um trem blindado com grande contingente militar à cidade de Santa Clara, tomada por Che. Antes mesmo de tomar posição, o trem foi descarrilado, promovendo um grande revés à operação, na qual a maioria dos soldados entregou suas armas sem resistência diante do cerco dos rebeldes e da consciência que já os acometia, fazendo-os crer na vitória de um exército legitimado pelo povo sobre o regime tirano que eles estavam defendendo.
Em 31 de dezembro de 1958 Batista fogiu do país, as colunas de Che e Camilo entraram em Havana em 3 de janeiro de 1959 sem encontrar resistência, uma greve geral foi organizada para desarticular as poucas mobilizações dos militares que haviam assumido o governo e a 8 de janeiro de 1959, o país inteiro comemorava a chegada de Fidel a Havana, saudado por todo o povo cubano que vibrava com a fuga de Batista e o triunfo da Revolução.

5 – A Construção de um Novo País

Após a vitória sobre a ditadura de Batista os desafios apenas começavam: era preciso reconstruir um país há mais de três séculos sob exploração estrangeira, a princípio espanhola e em seguida norte-americana. Fragilidade institucional, dependência econômica, corrupção, miséria, desemprego, analfabetismo, prostituição, jogo, enfim, um país desgraçado, sobretudo devido à violência imperialista e à hegemonia imposta com a subserviência política promovida pelas elites conservadoras locais refugiadas nos EUA, principalmente em Miami – de onde passaram a promover as ações publicitárias e terroristas contra Cuba.
Após instaurar um novo governo no qual Fidel assumiu a função de primeiro ministro, os primeiros passos foram acabar com as instituições que apoiavam Batista, o congresso eleito de forma fraudulenta e a polícia, confiscar seus bens e punir os colaboradores do seu regime. Para isso foram instaurados tribunais que contavam com a participação do povo sedento por justiça, ou vingança, que colaboraram na identificação de assassinos, torturadores e todo tipo de colaborador da ditadura: a pena de morte, ou paredón, foi aplicada a aproximadamente 400 pessoas, mas não sem todos os direitos de defesa , algo explorado pela mídia internacional, sobretudo dos EUA, para desclassificar o novo governo, comparando-o como apenas mais uma ditadura. Outras medidas foram imediatamente tomadas, como a redução dos aluguéis e das tarifas de serviços, substituição da moeda em combate à especulação, início das reformas na educação, saúde, etc., e o combate às drogas e aos cassinos da máfia norte-americana ligada a altos cargos políticos dos EUA, e que havia transformado Cuba num grande prostíbulo com o amplo apoio de Batista, seu exército e polícia.
Neste momento, as bandeiras revolucionárias ainda não possuíam caráter socialista, pois o programa de governo estava baseado no documento de defesa de Fidel quando esteve preso, “A História me Absolverá”. Entre as primeiras medidas do programa estava a Reforma Agrária, que expropriou os latifúndios, promoveu a distribuição de terras e organizou os camponeses em cooperativas. As outras medidas do programa eram: participação dos operários no lucro das empresas, confisco de bens malversados, política de solidariedade entre os povos latino-americanos democráticos acometidos por ditaduras . Muito antes dessas medidas os EUA já demonstravam preocupação com Fidel e seus guerrilheiros, evidenciada através de cooperação militar com o regime deposto, fornecendo armamentos, treinamento e colaborando diretamente nos bombardeios à Sierra Maestra. Batista havia se exilado na República Dominicana e de lá articulava a contra-revolução com a burguesia cubana exilada nos EUA. À medida que as ações do novo governo de Cuba caminhavam no sentido democrático, os interesses das empresas norte-americanas e da burguesia local eram contrariados, o que recrudescia os atentados contra-revolucionários a Cuba, planejados inclusive pela CIA, muitas vezes direcionados à própria pessoa de Fidel. A cada ação do governo cubano, como a nacionalização das empresas norte-americanas, United Fruits, Texaco e Esso, havia uma retaliação dos EUA, de onde partiam pequenos aviões para bombardear as plantações de cana e também a capital Havana. Nesta belicosa conjuntura, os EUA pararam de fornecer petróleo a Cuba e de comprar seu açúcar, fazendo a ilha buscar um novo parceiro na política externa bipolarizada devido à Guerra Fria, inicia-se assim o ingresso profundo de Cuba na terceira grande conjuntura internacional a que fazemos referência, pois claro estava que este parceiro seria a URSS, tendo em vista que na luta pela hegemonia internacional, esta e os EUA buscavam áreas de influência, fechando os espaços um do outro. Dessa forma, em 1961, são costuradas as primeiras relações políticas e econômicas com a URSS: esta passaria a comprar o açúcar da ilha e a fornecer-lhe petróleo. Era o início da inclinação em direção aos países do bloco socialista, que logo incluiu o estreitamento das relações diplomáticas com a China e o Leste Europeu. Soma-se a isso que, do ponto de vista geoestratégico, ter uma área de influência no Caribe, próximo aos EUA, era de grande interesse para a URSS e uma grande ameaça para o primeiro. Dessa forma, as ações contra-revolucionárias ganhavam corpo, milhares de terroristas se infiltraram no país para executar toda espécie de sabotagem contra o governo revolucionário, porém um episódio seria marcante neste sentido: em abril de 1961, desembarcaram 1500 homens na Baía dos Porcos, sul de Cuba, cubanos exilados e mercenários norte-americanos com apoio aéreo dos EUA. A resposta foi dada, a princípio, pelas milícias populares criadas para defender a Revolução e em seguida pelas tropas do exército comandadas pessoalmente por Fidel, que rechaçaram os inimigos. A imprensa norte-americana fazia seu papel na disseminação da ideia que as próprias tropas e a população haviam se voltado contra Fidel e que o mesmo havia morrido em combate. O governo dos EUA assumiu a participação na tentativa de golpe. Para resguardar a Revolução, o governo mobilizou todo o povo, além das milícias armadas foi criado o Comitê de Defesa da Revolução (CDR), organizado em cada bairro para ficar sempre vigilante contra qualquer tentativa de ações contra-revolucionárias . Neste sentido, o governo cubano infiltrou homens nas organizações contra-revolucionárias sediadas em Miami, o que evitou inúmeros atentados terroristas à ilha. E este talvez seja um dos episódios mais famosos e tristes da história cubana, pois os oficiais da inteligência cubana abandonaram suas famílias em prol da causa revolucionária; alguns foram descobertos, presos e julgados sem amplo direito de defesa, uns capitularam, porém cinco deles estão presos até hoje nos EUA. A consequência profunda de um movimento inicialmente voltado para derrubada da ditadura e implementação de medidas democráticas, foi minar as bases do capitalismo, contrariando os interesses norte-americanos e da burguesia cubana. Assim, as relações entre Cuba e EUA se deterioravam e, de forma inversamente proporcional, as relações de Cuba com a URSS se desenvolviam. Dessa forma, ao início de 1961 os EUA rompem todas as relações com Cuba decretando o embargo político e econômico que prometia, ainda, retaliar todos aqueles que mantivessem relações com a ilha; Colômbia e Venezuela aderem imediatamente . Em 1962 Cuba é expulsa da Organização dos Estados Americanos (OEA) devido à pressão dos EUA: todos os países latino-americanos romperam relações políticas e econômicas com a ilha; mas não apenas estes, como também todo o mundo ocidental sob hegemonia norte-americana se posicionou ao lado do capitalismo na geopolítica da Guerra Fria. E neste mesmo ano o mundo se viu na iminência de uma grande guerra entre EUA e URSS que assumiria dimensões catastróficas, dado o desenvolvimento bélico, sobretudo de armamento nuclear, desses países. A URSS instalou uma base com mísseis nucleares em Cuba, descoberta pelos norte-americanos que imediatamente fizeram um bloqueio naval impedindo navios soviéticos de aportarem na ilha, acirrando as tensões. Para sorte do mundo o impasse foi resolvido de forma diplomática. Sem manter relações políticas, e principalmente econômicas, com o mundo ocidental, a única alternativa para Cuba era se aproximar cada vez mais do bloco socialista. Todavia, a aliança com a URSS e os países do bloco socialista não se limitou às questões políticas e econômicas, mas também ideológicas, pois significou a definição sólida do significado da Revolução, que agora passara a ser socialista.

6 – Desenvolvimento e Declínio do Socialismo

Praticamente isolada, as dificuldades da ilha se multiplicavam, com sua economia baseada predominantemente na monocultura canavieira; simples produtos do cotidiano desapareceram com o embargo, já que praticamente todos eram importados. A complexidade dos problemas extrapolava os acordos comerciais com a URSS, que garantia o fornecimento de petróleo e a compra do açúcar. Os meios de produção foram estatizados, mas a industrialização num país que tivera toda sua história econômica ligada à monocultura para exportação não era possível dada a falta de desenvolvimento científico e de corpo técnico qualificado para tal empreendimento: à economia não restava alternativa que não o continuísmo da indústria canavieira. Com as dificuldades econômicas, a implantação da gratuidade dos serviços públicos e a consolidação do socialismo enfrentavam dificuldades, porém à medida que Cuba rompia definitivamente com os resquícios de capitalismo e a posição ideológica do Bloco Histórico que se formava assumia feição socialista, a relação com a URSS se solidificava: no plano comercial Cuba passara a fornecer, além de açúcar, frutas e tabaco, e recebia outros produtos agrícolas, equipamentos industriais e bélicos, além de petróleo. Os acordos, todavia, deixaram de ser meramente comerciais e passaram ao plano científico e tecnológico. A partir daí a agricultura foi mecanizada e outras atividades econômicas se desenvolveram concorrendo para a diversificação econômica do país.
Ao final da década de 70 a economia cubana estava recuperada e em franco desenvolvimento, embora dependente de uma potência econômica. Mesmo assim, o socialismo se assentava em bases mais sólidas: no plano social Cuba alcançava resultados vistos apenas em países ricos, o esporte e a cultura foram integrados à educação, logrou-se grande desenvolvimento no cinema, teatro, literatura e artes em geral; na saúde as ações de medicina preventiva substituíram as políticas de remediação, que favoreciam as grandes indústrias farmacêuticas. A Revolução chegara à sua plenitude e ganhava cada vez mais o apoio popular, enquanto as ações contra-revolucionárias perdiam força. A partir de 1976 o sistema político foi organizado em forma de Poder Popular, ou seja, qualquer cidadão poderia se candidatar para as assembléias municipais, que elegem os membros das assembléias provinciais, e que por sua vez elegem a Assembléia do Poder Popular, isto é, a assembléia nacional. Embora o país possua apenas um partido, os cidadãos não precisam estar afiliados a ele para concorrerem a um cargo público, pois suas campanhas são igualitárias, públicas e arcadas pelo Estado.
No plano político internacional, a Revolução Cubana representou um grande exemplo na luta contra os imperialismos, não apenas para os países da América Latina, mas para todo terceiro mundo. Este fenômeno preocupou os EUA ao ponto do mesmo patrocinar ditaduras militares por todo o continente para afastar a “ameaça comunista”, pois mais ameaçador do que o exército e as armas cubanas foi a ideologia socialista vencedora em Cuba. Pode-se afirmar ter sido esta a primeira grande derrota – a segunda seria o fracasso na Guerra do Vietnã – dos EUA no contexto da Guerra Fria, fato agravado pelo fato dessa nação socialista estar no continente americano, e a apenas 140 km da Flórida. De forma solidária, Cuba apoiou todos os movimentos contra as ditaduras, estivessem elas na América Latina, principalmente na América Central, ou na África, onde a presença de Che demonstrava toda sua coragem revolucionária, lutando no Congo. Posteriormente, Guevara foi morto em 1967 na Bolívia, pelo exército desse país, mas com apoio de militares norte-americanos. Se outras experiências socialistas não obtiveram êxito na América Latina nas décadas de 60 e 70, como desejava Che no seu projeto de disseminação da Revolução e da luta antiimperialista, à exceção da Nicarágua, isso se deve, em parte, à violência dos governos ditatoriais contra os movimentos desta natureza, graças ao apoio norte-americano que não intencionava perder outra batalha na Guerra Fria, e à eficácia dos mecanismos de cooptação e alienação da sociedade de consumo capitalista, que entorpecem a maior parte das populações latino-americanas.
A queda do bloco comunista em 1989 e a desintegração da URSS em 1991 inauguraram uma nova fase na história de Cuba, e este momento ficou conhecido como “período especial”. Com isso Cuba perdia seus principais parceiros comerciais e a estabilidade econômica garantida por acordos sólidos que ignoravam a volatilidade dos preços internacionais. A exportação de açúcar diminuiu drasticamente, a importação de todo tipo de artigo de consumo idem, mas acima de tudo, o petróleo garantido pela URSS foi reduzido à metade . Este evento não apenas impedia o processo embrionário de industrialização do país, mas principalmente, mergulhava a sociedade num período de grande dificuldade, no qual o abastecimento de produtos básicos foi comprometido, a dieta do cubano foi alterada sobremaneira e o racionamento de energia deixava as cidades em longos períodos sem luz. Diante das dificuldades, a imprensa internacional, os setores conservadores cubanos e os EUA contavam as horas para a queda do governo de Fidel. Para superar a crise, Cuba foi obrigada a fazer mudanças no sistema econômico, abriu as portas para o capital estrangeiro, principalmente para serem aplicados no turismo que passou a ser a principal fonte de divisas para o país, permitiu pequenas propriedades privadas e quebrou o monopólio sobre o plantio da cana-de-açúcar, organizando os produtores em cooperativas e permitindo que estes comercializassem a produção excedente. O país passou a conviver com duas moedas, o Peso Cubano com baixo poder de compra, e o CUC, na qual as transações na indústria do turismo ocorrem, alterando significativamente o poder de compra de quem possui moeda forte ou fraca. Estas modificações introduziram na sociedade cubana certas diferenças econômicas: as pessoas que possuíam pequena capacidade material para explorar a indústria do turismo, como possuir um carro e transformá-lo em taxi, ou a habilidade com os artesanatos aproveitada com a possibilidade de construir uma propriedade privada, lograram certa vantagem em relação aos demais. A diferenciação econômica entre os indivíduos não é suficiente para criar classes antagônicas, contudo a diferença do nível de vida é visível e amarga ao socialismo cubano. Os que vivem do turismo ganham mais do que os médicos e professores, principais atores no conjunto dos direitos sociais, pois recebem em pesos cubanos, e os primeiros em moeda forte (CUC). Em Havana há um sem número de desocupados que preferem arrancar um dólar por dia do turista a trabalhar, pois assim ganharão mais do que muitos professores e médicos, ou dedicar-se à venda de charutos e rum falsificados ou contrabandeados das fábricas. Existe venda de drogas e prostituição, porém voltados principalmente para os turistas; o pleno emprego não é mais uma realidade, a habitação e o transporte público são insuficientes, mas ao contrário dos países de sistema capitalista, em Cuba os direitos mais fundamentais são garantidos gratuitamente. As insatisfações ocorreram, contudo não o suficiente para implodir o sistema socialista cubano, muito bem defendido pelas lideranças revolucionárias e construído em bases sólidas, e que havia exterminado com a ditadura de Batista, acabado com a exploração capitalista, expulsado a máfia, erradicado o analfabetismo, criado sistemas educacionais e de saúde de primeiro mundo. Dessa forma, o apoio da população foi incondicional, e mais uma vez determinante. Destarte, podemos acreditar que a permanência das lideranças da Revolução no poder, a ampla democratização dos direitos sociais e a garantia mínima de vida mesmo num período de grave crise – ao contrário do que ocorreu no leste Europeu e na URSS, onde a solução foi aderir à economia de mercado, o que causou grandes danos à sociedade – foram responsáveis pela manutenção do governo socialista, ao contrário do esfacelamento que ocorreu com o restante do bloco socialista na Europa.

7 – Conclusão

Cuba talvez seja o exemplo mais claro do reflexo dos movimentos políticos e econômicos conduzidos pelas potências econômicas nas três conjunturas internacionais que citamos, e das dificuldades impostas aos países da América Latina por estarem a reboque destes: primeiro pela colonização espanhola, através da violência, do sistema de exploração econômica baseado na monocultura canavieira, e da escravização, sobretudo de africanos; segundo, pelo imperialismo norte-americano e suas intervenções militares, sabotagens, e bloqueio econômico; e terceiro, pela retaliação sofrida no contexto da Guerra Fria em função do ingresso de Cuba no bloco socialista. Esses problemas foram enfrentados, em maior ou menor grau, por todos os países da América Latina, porém podemos dizer que em Cuba suas cores e formas foram mais nítidas. Cuba foi um dos últimos países a se tornar independente na América, com as intervenções norte-americanas se dando de forma maciça e prolongada. As retaliações através da propaganda anti-socialista persistem até os dias de hoje, somando-se a isso o fato de que Cuba é o único país da América submetido a um embargo político e econômico que dura desde 1961, responsável certamente pelos principais problemas enfrentados pela ilha.
A independência cubana chegara de fato apenas em 1959, já que em 1898, ao expulsar os espanhóis à custa de centenas de milhares de pessoas, sua soberania foi retirada à força pelos EUA, inaugurando uma nova fase de dominação estrangeira. Em 1959, sob a liderança de Fidel Castro e Che Guevara, ente outros, Cuba inicia sua verdadeira experiência democrática. As dificuldades de implantação de um sistema socialista num país subdesenvolvido foram grandiosas, ao contrário do que Marx preconizava, ou seja, o socialismo como superação do modo de produção capitalista desenvolvido, o socialismo cubano se assentou numa economia agro-exportadora. Além do mais, o imperialismo norte-americano instalado na ilha há mais de meio século associado à burguesia local dificultava este empreendimento. É certo que, a princípio, a Revolução tinha apenas o objetivo de despojar o regime ditatorial de Batista e restabelecer a democracia, porém isto causou uma ruptura com o sistema capitalista de tal forma que empurrou a ilha em direção ao bloco socialista, e ao socialismo. A adesão ao bloco socialista não lhe proporcionou autonomia, pois da forma como se deu, ou seja, fornecendo de bens primários em troca bens acabados, viu impedido e defasado o seu processo de industrialização. Foi apenas com esses laços, contudo, que Cuba logrou solidificar os objetivos da Revolução de 1959, passando de um país sem soberania, dominado pelo imperialismo norte-americano em conluio com a burguesia local representada por governos corruptos e refúgio de mafiosos, a uma das nações mais igualitárias do mundo, onde direitos sociais são universais, a miséria e o analfabetismo foram erradicados, a educação, a saúde, a cultura, o esporte e o lazer são gratuitos e de qualidade, conferindo a Cuba índices de primeiro mundo no que se refere à qualidade de vida. A queda do bloco comunista, todavia, abalou consideravelmente essa superestrutura , fazendo muitos pensar que o socialismo havia chegado ao fim e que Cuba estaria arruinada. O socialismo cubano não chegou ao fim, muito ao contrário, ainda é o maior expoente de luta contra o capital que conhecemos, muito embora sobreviva com graves mazelas às dificuldades econômicas que se seguiram à deterioração dos serviços públicos. A introdução da pequena propriedade privada concorre para criar desigualdades sociais, o que, no entanto, nem de longe significa a exploração de uma classe sobre outra. Todavia, a grande coesão social com a qual toda população trabalhava em prol da sociedade foi abalada , pois agora muitos trabalham individualmente pelo seu futuro, e não de forma coletiva para o futuro de todos. As novas gerações não conviveram com os dias gloriosos da Revolução, mas ao contrário, vivem numa conjuntura econômica e social debilitada e sob influência da sociedade de consumo propagandeada pelas rádios e TV`s norte-americanas que chegam a Cuba. Soma-se a isso o contato com pessoas de outros países, devido à abertura ao turismo, que alimenta os seus sonhos materiais. Os desafios para Cuba manter as conquistas da Revolução são grandes, embora o Estado e o Partido Comunista Cubano mantenham em bases sólidas essa premissa. O mais importante é que a democracia social e o sistema socialista não estão ancorados num governo, ou numa elite, mas sim em todo o povo. A Revolução Cubana é um orgulho para todos, o que lhe confere legitimidade e fôlego para enfrentar estes desafios, e da mesma forma que Cuba reflete mais nitidamente os problemas impostos aos países da América Latina, é lá também que a democracia assume sua forma mais nítida, mas apenas para quem sabe enxergar.









Bibliografia

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Sites:

http://www.cubagob.cu/ - Sitio del Gobierno de la República de Cuba